O PROVOCADOR E OS PREGADORES DE IRAS
Há dois dias, um Benfica competente, corajoso e bem organizado - que diferença
face a um passado recente! - acabou derrotado por um cinzento Real Madrid, com
golos de dois jogadores que não deveriam ter participado nesta segunda mão,
caso a habilidosa arbitragem no jogo da Luz os tivesse sancionado com os
cartões amarelos que os especialistas portugueses e espanhóis reconheceram como
correspondentes às suas ações em campo.
A UEFA promove campanhas sobre os sonhos europeus no futebol, mas constata-se que apenas permite os que são validados pela instituição, devendo os demais ser suprimidos. Os fundamentos do jogo: o talento, o trabalho, a construção de uma equipa e a verdade do terreno, são matéria acessória e secundária face a privilégios como a proximidade ao poder.
E este ocupa-se dos sonhos, através de instrumentos
como o Sr. Letexier, cuja nomeação para o desafio da Luz, tanto agradou em
Madrid. Contudo, a vida é feita de ciclos e, nos próximos confrontos dos
oitavos de final com o Manchester City, quem sabe se os madridistas não
virão a sentir o mesmo e decisivo enviesamento que os benfiquistas sentiram no
passado dia 17 no Estádio da Luz. Como dizia um político: "Mesmo se
não te ocupes do poder, o poder ocupa-se de ti".
No balanço deste playoff, a imprensa espanhola destacou o papel de Vinícius: " Estrela indiscutível do confronto" (a Marca), " Baila Vini Baila" (o As). Já os media portugueses, fechados na sua bolha populista, desferiram uma espiral de ataques visando Prestianni, Mourinho, a Comunicação do Benfica e o próprio Presidente Rui Costa, tendo como pano de fundo a acusação de Vinícius de ter recebido uma ofensa racista (que se encontra por provar e estou convicto que dificilmente o será).
Ora, a gravidade dos ataques merece ser analisada à luz dos factos.
No passado dia 28 de janeiro, o Real Madrid, no Estádio da Luz, apresentou na sua equipa inicial cinco jogadores de etnia negra. Posteriormente, outros dois jogadores negros entraram como substitutos. Algum destes jogadores se queixou de um qualquer desrespeito ou de um episódio racista? Não só não houve queixas, como os golos de qualidade então obtidos por Mbappé, sendo celebrados de forma normal, não geraram qualquer incidente com os jogadores do Benfica.
No recente dia 17 de fevereiro, o Real Madrid, no Estádio da Luz, alinhou na
sua formação inicial com seis jogadores de etnia negra. Até ao momento do
extraordinário golo de Vinícius e da sua provocatória celebração, dirigida
ostensiva e diretamente contra os adeptos do Benfica, houve alguma reclamação
por desrespeito ou algum episódio racista por parte dos jogadores do Benfica?
Nada foi registado.
Do lado do Benfica, seguindo uma velha tradição do clube, existem igualmente
vários jogadores de ascendência africana: Samuel Soares, Bah, Sidny, Leandro
Barreiro, Bruma, Lukebakio e, agora, os jovens campeões do mundo Sub-17,
Banjaqui e Anísio Cabral. Houve alguma vez, relatos de problemas no plantel,
por questões de racismo? Que se saiba, nada foi reportado. Nos valores do clube
do Rei Eusébio e do grande capitão Mário Coluna, não existiu, não há, nem
haverá lugar, para qualquer complacência com o racismo.
Analise-se agora o histórico do queixoso e muito celebrado Vinícius. Em
Espanha, quantas vezes se queixou de ser vítima de "racismo"? Ao que
parece umas 20 vezes em 8 anos de Real Madrid. Curiosamente, apenas ele, sempre ele, e nenhum outro dos
seus colegas de etnia negra. Quantas vezes se envolveu Vinícius em desacatos,
em inúmeros campos de futebol, espalhados por toda a geografia espanhola? Quem
enfadou o seu então colega Benzema, ao ponto de este dizer sobre Vinícius:
" não lhe passem a bola, ele joga contra nós". Quem se indispôs
publicamente contra o seu ex-treinador Xabi Alonso, ao ser substituído? Quem
foi prioritariamente assobiado no próprio Santiago Bernabéu, na sequência da
eliminação do Real Madrid da Copa del Rey? Vinícius sempre e só Vinícius. Um
craque a quem o talento ofuscou, transformando-o num provocador de índole
vulgar.
Foi esta propensão para as provocações e para os desacatos que o levou a
executar uma celebração deliberadamente ostensiva para com os adeptos do
Benfica, indignando os seus jogadores e todos os benfiquistas. Dentro do campo
de jogo que é o que interessa neste caso (deixo de fora as lamentáveis e episódicas ocorrências na bancada com consequências imprevisíveis porque provadas com imagens e que
originaram resposta pronta da Direção ao suspender 5 Sócios que poderão
conduzir à sua expulsão) sofreu as consequências da sua provocação, sob a
presumível forma de insultos que, caso tenham ocorrido e embora indesejáveis,
são moeda corrente nas tribos do futebol e mesmo nos desportos de pavilhão. Só
quem nunca praticou desporto de competição, pode imaginar que as batalhas
desportivas se disputam pelas mesmas pautas de reuniões de salão. Contudo,
particularidade importante, ofensas e insultos proferidos no calor dos jogo, não
significam necessariamente racismo - embora o possam ser em casos esporádicos. Na esmagadora maioria, estes impropérios devem ser enquadrados num ambiente de alta
tensão em que o adversário “deve” ou “tem que” ser desorientado, para
conseguirmos os “nossos” objetivos.
No Real Madrid há um histórico de celebrações icónicas, mas sem vulgaridade e ocorridas em resposta a ofensas do exterior. Em 1999, Raul González mandou calar o Camp Nou, num gesto que ficou célebre, em réplica a insultos vindos das bancadas. Em 2012, CR7 depois de marcar o segundo golo (resultado de 1-2) também no Camp Nou, e face aos assobios ensurdecedores vindos das bancadas, pediu ao publico que se acalmasse porque ele estava ali. O seu gesto icónico, coincidiu com a assinatura de mais uma vitória madridista na Liga espanhola.
Infelizmente, Vinícius, seguiu outra via: a de provocar gratuitamente “a alma
de um estádio”. Lá está: um talentoso jogador que se vulgariza na vida e sempre
pelas piores razões.
Mas, nos nossos canais de televisão, indiferentes a estas circunstâncias, os
habituais pregadores de iras, aproveitaram uma eventual resposta corrente
nas tribos do futebol (o putativo insulto de Prestianni) para renovar uma
campanha anti-Benfica e anti-Mourinho, agora acusados de pactuar com
comportamentos racistas. Imediatamente após o jogo, esta “certeza” dos
instalados opinadores anti-Benfica estava já cimentada. Passada mais de uma
semana, o frenesim destes arrebatados comentadores, pouco preocupados com o
contexto dos factos ocorridos e desligados da verdade de fundo, não se acalmou.
As cascatas de furores vários, derramadas sobre Mourinho e o Benfica, com
Prestianni como trampolim, visam nutrir ricas audiências. Diariamente forjam
minúsculos episódios de intrigas e de iras várias, que lhes darão a ilusão de
poder, na ausência de um verdadeiro talento jornalístico.
O pensamento racional e moderado que pautou gerações de jornalistas, é hoje
substituído por formas de ativismo de estúdio televisivo que fraturem as
opiniões e galvanizem as visões extremas.
Talvez seja este paradigma atual nos comentadores desportivos, que tenha levado
recentemente Luis Enrique, duas vezes eleito o melhor treinador do mundo em
2025 ( Bola de Ouro e The Best FIFA) a dizer recentemente : "Busco hacer
lo contrario a lo que dicen los periodistas" (jornal AS, 7 de fevereiro de
2026).
De facto, não é o comentário futebolístico dos pregadores de iras que
define o Benfica. O importante é quem somos como clube: os valores que nos
distinguem, a grandeza da nossa história, as ambições que nos motivam, as
conquistas que nos esperam e as multidões que nos quatro cantos do mundo nos
suportam.
Quem molda o Benfica são apenas e só os
benfiquistas.
Nuno Paiva Brandão
Sócio 50.166