Hino ao futebol, ao desportivismo e à amizade
1. Muito já se escreveu, tanto na comunicação social como neste blog benfiquista (de um amigo de há décadas), sobre a épica vitória de Quarta-feira sobre o todo poderoso Real Madrid, detentor de 15 títulos de campeão europeu, o primeiro dos quais na longínqua época de 1955/1956, em que a competição se designava por Taça dos Campeões Europeus. Modelo simples era então adoptado: sorteio entre 16 equipas – apenas as vencedoras dos respectivos campeonatos nacionais – com eliminatórias a duas mãos, com excepção da final, disputada em campo neutro, no caso no Parc des Princes, em Paris.
Muita coisa mudou nestes 70 anos - como sabemos, a competição passou a ser disputada por bastante maior número de equipas, não só as campeãs de cada país representado (Inglaterra, Espanha, Alemanha e Itália apuram 4 equipas com entrada directa, para dar um exemplo) isto por uma variedade de motivos, alguns puramente desportivos, mas de que os mais relevantes são de natureza financeira. Adiante, sobre esse tema não me quero pronunciar para já...
Permitindo-me citar Sérgio Pereira, refere ele em texto publicado no Mais Futebol, que “só o futebol tem aquela capacidade de, em dois segundos, transformar um adulto sensato num miúdo de oito anos”, seja pelas más como pelas boas razões. Foi o que senti, por exemplo, quando perdemos, no mesmo ano, todos os títulos em disputa, em especial pelo fabuloso jogo que o Benfica fez na final da Liga Europa com o Chelsea, ou quando sofremos o segundo golo mesmo no final do jogo no Dragão, por um tal Kelvin de quem ninguém mais ouviu falar e que nos retirou então o campeonato nacional. Ou quando, em sentido contrário, bem positivo, fomos à Alemanha empatar a 4 com o temível Bayer Leverkusen, em 1994, com outro jogo inesquecível!
Ora bem, desta vez foi a espectacular vitória sobre o Real Madrid, espectacular tanto pela qualidade da exibição como pela ocasião em que marcámos o quarto golo, no último “sopro”, e ter sido seu autor o nosso guarda-redes, que me transformou num miúdo de oito anos, vá, dez ou onze, pois confesso que me vieram as lágrimas aos olhos, de alegria incontida; como vinham quando o Benfica perdia qualquer jogo que fosse... Como frequentemente se vêem crianças a assistir a uma derrota da equipa que apoiam e pela qual “sofrem horrores” quando assim sucede.
Marcar quatro golos ao Real Madrid, só não tendo sido mais por inépcia dos nossos jogadores como pela qualidade do gigante Courtois, que, pelas estatísticas, fez 7 defesas, o que não está ao alcance de todos! Coube-nos a nós quase “humilhar” as super-vedetas da equipa espanhola, feito que se deveu não apenas ao pensamento táctico de Mourinho, como à atitude constante de procura da vitória pela equipa, incentivada pelo apoio permanente do público que presenciou o encontro.
Ficou bem provado que o verdadeiro “Inferno da Luz”, já há tempos dali afastado, contribuiu para o espírito competitivo e ganhador que os jogadores evidenciaram nos 96 minutos, o que me leva a pensar que, se os sócios e adeptos mantivessem esse tipo de apoio ao longo de todo o jogo (como sucede em Inglaterra, por exemplo) – e não assobiassem quando as coisas não correm tão bem - alguns dos “inacreditáveis” pontos perdidos esta época contra equipas “de outro campeonato” em nossa casa teriam sido transformados em vitórias; e assim, poderíamos estar hoje em melhores condições para disputar o titulo, o que os 9 pontos de atraso que temos relativamente ao líder muito dificultam. Mais uma vez, imagino-me voltar a ser um miúdo de 10 ou 11 anos se, “malgré tout”, chegarmos à derradeira jornada da Primeira Liga e conquistá-lo!!!
2. Apesar dessa pesada derrota, que impediu o Real Madrid de integrar o lote dos primeiros classificados que vão desde já para os oitavos da Champions, não posso deixar de aludir à notável atitude do seu guarda-redes, Courtois, quando, terminado o jogo, deu o que senti ser um sincero abraço de parabéns ao Trubin pelo golo marcado na sequência do livre “imaculado” do Aursnes. Que comportamento de desportivismo exemplar! Que pena não vermos atitudes destas com mais frequência nos nossos estádios... Que pena tenho ao constatar que alguns adeptos – e, infelizmente, treinadores ou dirigentes - não aceitam a derrota com desportivismo ou darem ares de sobranceria quando a sua equipa ganha...!
3. Depois disto tudo, estou certo de que ficarão surpreendidos quando vos disser que não fui à Luz ver esta última exibição contra o Real Madrid! Além de ter um compromisso semanal que me ocupa duas horas das Quartas-feiras a partir das 18 – o que significaria chegar bastante atrasado ao jogo ou faltar ao dito compromisso – entendi que melhor faria se cedesse o lugar que tenho no estádio ao meu maior e mais antigo amigo que passa por um momento extremamente difícil, pela recente e inesperada morte da sua Mulher; só para ouvir o que me disse após o jogo e, no dia seguinte, o que me escreveu e posso revelar: “Foi uma noite para recordar!”, valeu a pena!
José Manuel Azevedo
Sócio nº 48324