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Montanha russa de emoções…

Montanha russa de emoções…

(Nota: Crónica escrita a 2 tempos)

Antes do Real Madrid, bem que precisávamos de tranquilidade. O calendário ditava na Luz um Estrela da Amadora que, na primeira volta jogada na Reboleira, tinha apresentado inesperadas dificuldades. A vitória tinha sido a ferros e essa lembrança ficou. Mas naquele domingo a equipa que apresentou pela frente era outra, bem diferente, a começar por um Sidny que trocou de camisola e foi determinante na vitória por 4-0.

Mourinho, antecipando fragilidades que o Estrela tinha demonstrado contra o Estoril na semana anterior (0-5) e pensando no jogo contra um Real Madrid na Champions onde nem a nossa vitória pode chegar para o apuramento, decidiu dar descanso a prováveis titulares e oportunidades a jovens formados no Seixal. Um a titular (Benjaqui) poupando Dedic, outros no banco (Prioste, Anisio e o guarda-redes Voitinovicius) a entrar se o jogo se proporcionasse, como realmente se proporcionou para alguns.

Se a exibição na primeira parte foi bastante frouxa, apesar de, como de costume, termos de construir várias oportunidades para concretizarmos uma - desta vez bem inesperada porque o golo resulta de um canto, coisa rara nesta época, onde Pavlidis demonstrou dotes de cabeceador que desconhecíamos - a segunda parte valeu o bilhete para os 54 mil que lá foram, particularmente pelos miúdos que Mourinho inteligentemente meteu a jogar. O resultado deu para essas experiências e os miúdos não desaproveitaram, deixando água na boca aos adeptos orgulhosos do Seixal.

Quando o jogo terminou, muitos desses adeptos desataram a reclamar por maior assiduidade desses meninos, esquecendo que é preciso paciência para os bons suplantarem a transição das exigências de juniores para seniores. Tudo a seu tempo e com tempo, porque o desígnio é comum, mas as precipitações são más conselheiras. Para já, soube muito bem e certamente que muitos terão oportunidades, ficando eu com enorme curiosidade sobre o guarda-redes lituano (de 1,88 de altura) a quem já vi defesas na equipa B que me “encheram o olho”.

O jogo contra o Real Madrid foi, até agora, o jogo da época. Inesquecível a exibição, um resultado que deu brado na Europa, um golo de Trubin que fica na memória coletiva, a começar pela dele - podendo agradecer a Aursnes ter-lhe proporcionado o “golo da vida”. Já escrevi aqui um artigo sobre este jogo que foi mesmo épico, pelo que sem delongas, passo para o pós-jogo.

As reações em todo o Mundo e na Europa, em particular na Ucrânia por tudo o que tem vivido nestes quase 4 anos de guerra, devolveram o Benfica à grandeza internacional. Os filmes pululam na internet, viu-se os eufóricos adeptos do Barcelona a festejarem o golo de Trubin como se não houvesse amanhã, o desalento em França pesarosos pelo seu Marselha e o desapontamento dos adeptos “merengues” tecendo loas a Mourinho, um técnico que tantas saudades deixou à esmagadora maioria “hincha”, a começar por Florentino Pérez. Vão revê-lo agora em Madrid, entre o entusiasmo e o receio de mais um desgosto. Saberemos a 25 fevereiro se ou se, mas esse receio que hoje nutrem pelo Benfica tem um nome: Mourinho!

Falta falar sobre o Tondela, sem qualquer vontade de relembrar quanto porfiámos sem qualquer resultado prático - sim, porque fazer 1 ponto ali, esteja o campo como estiver, é sempre proibido. Esta montanha russa de emoções que a equipa (que ontem deu tudo) proporciona aos adeptos, só tem um único benefício: testar os nossos corações e sua resistência aos momentos em “quase que, mas não foi”.

Repetiu-se a mesma pecha do jogo contra o Estrela, ou seja, somos muito perdulários a concretizar, agora já com alas a conseguir alimentar jogo na área, mas a faltar sempre um pé, ou calcanhar, uma cabeça, uma unha, um cabelo ou até um ombro. Bernardo (guarda redes do Tondela) passou de ilustre desconhecido a figura de primeira página de jornais, só lhe faltando naqueles longos pontapés de “costa a costa” surpreender Trubin. 

Saímos então com 1 pontito, numa jornada em que poderíamos ter ficado a 1 ponto do Sporting e saímos com 5 de atraso, calculadora na mão a perorar sobre as hipóteses de chegarmos ao 2 lugar. Sobre o 1 lugar, Mou disse tudo - se o FCP ganhar hoje serão 12 pontos e as probabilidades ficam muito reduzidas.

Aceitemos isso, como temos de aceitar tanta coisa desagradável na vida, mas tenhamos (a Direção sff) a lucidez de fazer desta época a transição para épocas onde o planeamento a prazo se sobreponha aos improvisos e remedeios. Benfica deveria ter definido o seu “ano zero” no ano em que tão bem ganhámos o 38 e vejam lá o atraso com que estamos face aos adversários que nalgum momento o souberam fazer. Vamos sempre a tempo, mas quanto mais tempo demorarmos a encontrar esse ponto de partida (agora que até temos um treinador que pode ser a catapulta de um novo Benfica), mais anos andaremos a lamuriar sobre todas as razões externas que nos rodeiam, por vezes bem verídicas, mas jamais a causa de tanta penúria - porque é internamente que tudo começa.

Apontamentos

1. Há dias, o Seixal acordou sobressaltado. Um grupo de uns 200 adeptos lembrou-se de ir até ao Centro de Estágio da equipa profissional de futebol e pelas notícias publicadas não terá sido para cantar as Janeiras… felizmente que tudo foi resolvido com elevação, tendo a Direção sabido, com mestria, contornar a (legítima) insatisfação dos adeptos perante as demasiadas desilusões desta época ao convidá-los para entrar e conversar com treinador, dirigentes e capitães de equipa. Esperemos que tenha sido uma vez sem exemplo (há meses igualmente aconteceu nas garagens do Estádio num ambiente bem mais sobressaltado), porque as equipes profissionais precisam de tranquilidade e (maus) exemplos alheios devem ficar por casa(s) alheia(s).

 2. Finalmente, o Benfica consumou o acordo com a NOS a vigorar até 27/28, conseguindo um acordo por cerca de 104 M euros, um pouco acima do acordo anterior (se descontarmos a inflação, nem por isso). Depois ainda há uns “pozinhos” que pode fazer chegar a verba a 114 M em 2 anos. A partir daqui, dizem que se confirmará a centralização de direitos onde por todos os figurinos que se desenhem, “mutatis mutandis”, a probabilidade do Benfica perder dinheiro (algum ou muito) é quase de 100%. Oh Senhores da Liga Profissional, enxerguem-se um pouco e reestruturem lá o futebol português, permitindo maior encaixe financeiro a dividir de forma bem mais equilibrada, por forma a que se evite um extremar de posições que só conduz a lado nenhum.

Manuel Boto - Socio 2794