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Indignação, revolta e conformismo (por José Manuel Azevedo)

Indignação, revolta e conformismo

1.     Na minha vida de desportista federado de uma modalidade de pavilhão, daquelas supostamente apelidadas hoje de “amadoras” (o voleibol), mesmo aí sucediam situações indignas para quem, como eu, preza os valores da civilidade e boa educação. Apesar de não serem permitidos contactos, para o que contribui a existência de uma rede a separar as duas equipas em contenda, havia sempre alguém que ofendia o adversário, tanto por palavras, como (mais raramente) por actos – pequenos pontapés dados nas canelas de quem se encontrava na frente da rede, sem consequências para a integridade física, atendendo ao calçado que nessa altura se usava. Já quanto à arbitragem, aí, as ditas situações indignas verificavam-se com frequência, em especial quando não se concordava, com razão, com uma decisão tomada em nosso desfavor. Não é com orgulho que confesso que eu próprio fui penalizado com um cartão amarelo (uma única vez, em doze anos de carreira) quando, na altura no banco dos suplentes, fiz um gesto dirigido ao árbitro que significava que ele parecia nada ver em jogadas que nesse jogo nos prejudicaram bastante...

2.     Se isto se passava no voleibol, de nada surpreende que suceda no futebol ou no andebol (curiosamente, bem menos vezes no râguebi), em que os contactos são permitidos e em que interpretações de um mesmo tipo de lance por árbitros diferentes provocam a ira de quem está dentro do campo, de quem dirige as equipas e, por maioria de razão, do público, que também por esses comportamentos é influenciado.

3.    Da indignação à revolta vai um pequeno passo, justamente o que se deu na Terça-feira no Estádio de Luz – após a marcação daquele golo fabuloso do Vinícius Jr., que se lembrou de um “toca a provocar” o público com manifestações e gestos impróprios de um profissional que se preze, a que se lhe juntou depois Kyllian Mbappé, com 25 e 27 anos de idade, respectivamemte (o meu cartão amarelo foi-me mostrado aos 19...). E para que local se dirigiram eles os dois? Justamente para a bancada dos No Name que, nunca sendo “pera doce”, reagiram de imediato da forma como todos sabemos, quantas vezes custando diversas penalizações de milhares de euros, além da proibição de venda de bilhetes a adeptos para jogos a disputar fora de casa.

4.    Essa revolta, compreensível, torna-se indesculpável quando assume a produção de sons que imitam os guinchos dos símios, já para não falar, como sucedeu depois, em mandar o jogador para o sítio habitual, o que infelizmente hoje até já faz parte dos vocabulários curriculares das juventudes estudantis.

5.    Pessoalmente, jamais me revejo nestes comportamentos, aliás como neles não se revê a maioria dos sócios e adeptos benfiquistas, o que ficou bem claro na bancada onde tenho o meu lugar, levando a alguma discussão entre pessoas que defendem efectivamente o clube e aqueles que, por atitudes do género das descritas, só o prejudicam. Aliás, salvo erro na época passada, assisti ao impensável: inadmissíveis manifestações de benfiquistas contra benfiquistas – entre a bancada dos No Name e os restantes sócios, quando estes de forma audível pediam que deixassem de ser arremessados petardos que até poderiam ter tido consequências graves para a integridade física de terceiros, incluindo jogadores!

6.    O tema em questão suscita diversas reflexões. Há muitos anos que o Benfica não reconhece a existência de claques, designando-as por “Grupos organizados de adeptos”, a quem certamente fornece bilhetes para assistirem aos jogos, porque são parte imprescindível do espectáculo e constituem força poderosa de apoio, isto quando querem apoiar como tão bem sabem. Mas tem de haver regras mínimas a cumprir, uma delas que indiscutivelmente passa por persuadir estes indefectíveis adeptos a jamais entrarem com artefactos pirotécnicos, os quais, podendo ser muito “decorativos”, são altamente nefastos, até para a saúde dos jogadores, pelos fumos que produzem – o que implica exercer um efectivo controlo sobre a sua entrada, punindo a empresa de segurança que o permitir.

7.    Ainda a este respeito, permitam-me uma breve nota, a propósito dos graves e inadmissíveis incidentes que ocorreram antes deste último jogo de futsal entre Sporting e Benfica, de onde resultaram 124 detenções; em Inglaterra, os “hooligans” deixaram de poder entrar nos estádios, pelo que aqui formulo uma pergunta: em Portugal, até quando as forças de Segurança (que todos custeamos) continuarão a permitir a desordem que já parece institucionalizada, tantas são as confusões armadas (diria mesmo, preparadas) entre e pelas claques de todos os clubes?

8.     Tratei de indignação e revolta. Falta tratar do conformismo – alguém em seu perfeito juízo pode deixar de reconhecer a clara superioridade do Real Madrid no jogo de Terça-feira e com ela não se conformar? A equipa do Benfica lutou com denodo até ao fim  – também contra uma arbitragem “habilidosa” liderada por um francês bem conhecido de José Mourinho – e se não fez mais e melhor foi apenas porque não o conseguiu, não tendo o engenho e a arte suficientes para criar oportunidades que se pudessem considerar “de golo feito”. Ao invés, logo na primeira parte, o Real dispôs de algumas daquelas consideradas flagrantes, em que numa a sorte e noutras Trubin nos salvaram. O público terá saído conformado com o resultado, sim, mas com esperança de que o prestígio do clube seja mantido na partida da próxima semana, na capital espanhola.

9.      Entretanto, para a Primeira Liga, AVS em casa e Gil Vicente, fora, são desafios em que não deveremos permitir deixar qualquer ponto em disputa! Aí, sim, jamais nos poderemos conformar com um simples empate...!

José Manuel Azevedo – sócio nº 48324