Indignação, revolta e conformismo
1. Na minha vida de desportista federado
de uma modalidade de pavilhão, daquelas supostamente apelidadas hoje de
“amadoras” (o voleibol), mesmo aí sucediam situações indignas para quem, como
eu, preza os valores da civilidade e boa educação. Apesar de não serem
permitidos contactos, para o que contribui a existência de uma rede a separar
as duas equipas em contenda, havia sempre alguém que ofendia o adversário,
tanto por palavras, como (mais raramente) por actos – pequenos pontapés dados
nas canelas de quem se encontrava na frente da rede, sem consequências para a
integridade física, atendendo ao calçado que nessa altura se usava. Já quanto à
arbitragem, aí, as ditas situações indignas verificavam-se com frequência, em
especial quando não se concordava, com razão, com uma decisão tomada em nosso
desfavor. Não é com orgulho que confesso que eu próprio fui penalizado com um
cartão amarelo (uma única vez, em doze anos de carreira) quando, na altura no
banco dos suplentes, fiz um gesto dirigido ao árbitro que significava que ele
parecia nada ver em jogadas que nesse jogo nos prejudicaram bastante...
2. Se isto se passava no voleibol, de
nada surpreende que suceda no futebol ou no andebol (curiosamente, bem menos
vezes no râguebi), em que os contactos são permitidos e em que interpretações
de um mesmo tipo de lance por árbitros diferentes provocam a ira de quem está
dentro do campo, de quem dirige as equipas e, por maioria de razão, do público,
que também por esses comportamentos é influenciado.
3. Da indignação à revolta vai um
pequeno passo, justamente o que se deu na Terça-feira no Estádio de Luz – após
a marcação daquele golo fabuloso do Vinícius Jr., que se lembrou de um “toca a
provocar” o público com manifestações e gestos impróprios de um profissional
que se preze, a que se lhe juntou depois Kyllian Mbappé, com 25 e 27 anos de
idade, respectivamemte (o meu cartão amarelo foi-me mostrado aos 19...). E para
que local se dirigiram eles os dois? Justamente para a bancada dos No Name que,
nunca sendo “pera doce”, reagiram de imediato da forma como todos sabemos, quantas
vezes custando diversas penalizações de milhares de euros,
além da proibição de venda de bilhetes a adeptos para jogos a disputar fora de
casa.
4. Essa revolta, compreensível, torna-se
indesculpável quando assume a produção de sons que imitam os guinchos dos
símios, já para não falar, como sucedeu depois, em mandar o jogador para o sítio
habitual, o que infelizmente hoje até já faz parte dos vocabulários
curriculares das juventudes estudantis.
5. Pessoalmente, jamais me revejo
nestes comportamentos, aliás como neles não se revê a maioria dos sócios e
adeptos benfiquistas, o que ficou bem claro na bancada onde tenho o meu lugar,
levando a alguma discussão entre pessoas que defendem efectivamente o clube e
aqueles que, por atitudes do género das descritas, só o prejudicam. Aliás,
salvo erro na época passada, assisti ao impensável: inadmissíveis manifestações
de benfiquistas contra benfiquistas – entre a bancada dos No Name e os
restantes sócios, quando estes de forma audível pediam que deixassem de ser arremessados
petardos que até poderiam ter tido consequências graves para a integridade
física de terceiros, incluindo jogadores!
6. O tema em questão suscita diversas
reflexões. Há muitos anos que o Benfica não reconhece a existência de claques,
designando-as por “Grupos organizados de adeptos”, a quem certamente fornece
bilhetes para assistirem aos jogos, porque são parte imprescindível do espectáculo
e constituem força poderosa de apoio, isto quando querem apoiar como tão bem
sabem. Mas tem de haver regras mínimas a cumprir, uma delas que
indiscutivelmente passa por persuadir estes indefectíveis adeptos a jamais
entrarem com artefactos pirotécnicos, os quais, podendo ser muito “decorativos”,
são altamente nefastos, até para a saúde dos jogadores, pelos fumos que
produzem – o que implica exercer um efectivo controlo sobre a sua entrada,
punindo a empresa de segurança que o permitir.
7. Ainda a este respeito, permitam-me
uma breve nota, a propósito dos graves e inadmissíveis incidentes que ocorreram
antes deste último jogo de futsal entre Sporting e Benfica, de onde resultaram 124
detenções; em Inglaterra, os “hooligans” deixaram de poder entrar nos estádios,
pelo que aqui formulo uma pergunta: em Portugal, até quando as forças de
Segurança (que todos custeamos) continuarão a permitir a desordem que já parece
institucionalizada, tantas são as confusões armadas (diria mesmo, preparadas)
entre e pelas claques de todos os clubes?
8. Tratei de indignação e revolta.
Falta tratar do conformismo – alguém em seu perfeito juízo pode deixar de
reconhecer a clara superioridade do Real Madrid no jogo de Terça-feira e com
ela não se conformar? A equipa do Benfica lutou com denodo até ao fim – também contra uma arbitragem “habilidosa” liderada
por um francês bem conhecido de José Mourinho – e se não fez mais e melhor foi
apenas porque não o conseguiu, não tendo o engenho e a arte suficientes para
criar oportunidades que se pudessem considerar “de golo feito”. Ao invés, logo
na primeira parte, o Real dispôs de algumas daquelas consideradas flagrantes, em
que numa a sorte e noutras Trubin nos salvaram. O público terá saído conformado
com o resultado, sim, mas com esperança de que o prestígio do clube seja mantido na partida da próxima semana, na
capital espanhola.
9. Entretanto, para a Primeira Liga, AVS
em casa e Gil Vicente, fora, são desafios em que não deveremos permitir deixar
qualquer ponto em disputa! Aí, sim, jamais nos poderemos conformar com um
simples empate...!
José Manuel
Azevedo – sócio nº 48324