EM QUE É QUE O BENFICA NECESSITA DE PENSAR E ACREDITAR?
No dia anterior ao histórico Benfica-Real Madrid, um desses críticos afirmava: "Se o Benfica perdesse Mourinho talvez até se livrasse de um problema na próxima época". Além da habitual tentativa de disrupção benfiquista, tão propícia a gerar audiências, este autogolo analítico manifesta a contemporânea propensão para a sobranceria em relação ao saber e à experiência, o desapreço pelos conhecimentos de especialistas versados (as chamadas "elites"). Assim, estes observadores, sem o peso da responsabilidade de uma vida ativa no futebol, podem facilmente desdenhar as habilidades e as vivências dos peritos do jogo, substituindo-as pelo entusiasmo destrutivo (“quebram o copo de vidro para comentar o voo dos estilhaços"), que faz as delícias diárias deste tipo de falsos eruditos da bola.
Felizmente e com grande mérito, nem o Benfica perdeu o jogo, nem se "livrou de Mourinho". Na realidade, o Benfica necessita de superar o longo inverno de resultados, que dura desde 2022/23. Mas para voltar a ganhar consistentemente e, sobretudo, para reaparecer como dominador do futebol em Portugal, precisa de estabilidade nos ciclos longos, por oposição à habitual substituição em série de treinadores e de projetos. Estabelecer uma nova soberania duradoura, como a da segunda década deste século, vai carecer de um planeamento a longo prazo e de um "arquiteto", que seja uma figura de competência e autoridade, capaz de liderar a transformação do futebol do clube.
No passado recente, como treinadores, o Benfica teve um inovador tático como Jorge Jesus, um disciplinador estruturado como Roger Schmidt e um orientador próximo dos jogadores como Bruno Lage, tudo competências necessárias mas insuficientes. A transformação exigida, para se passar da subalternidade para a posição dominante, requer um perfil de liderança e um conjunto de competências e de experiências, validado ao mais alto nível, como é o caso de Mourinho.
Por outro lado, o Benfica fabricou - com muito mérito de LFV, Rui Costa e de toda a estrutura do Seixal - uma parcela de altíssimo valor: a sua formação. Para nos focarmos apenas no tempo recente: campeões nacionais sub-15 nas últimas três épocas, idem no escalão sub-17 e campeões nacionais de sub-19 em 2024/25.
Com 9 jogadores campeões da Europa e do Mundo em sub-17, dos quais três já se estrearam com Mourinho na equipa principal (Banjaqui, Neto e o goleador Anísio Cabral), o Benfica soube forjar as bases de talento para um desempenho futuro de elevada qualidade. Mas como assegurar que alguns dos melhores jogadores do mundo nestas idades, consigam manter esse estatuto cinco ou dez anos depois? Como garantir que de uma massa de uns 50 jogadores das gerações nascidas entre 2006 e 2010, haja uma taxa de aproveitamento que permita que uma dezena deles possa chegar à primeira equipa e mais longe?
O talento jovem pode desperdiçar-se, ou pode não se desenvolver, se no clube não existir uma visão transformadora, capacidade de planeamento e organização, além de atributos operacionais em que Mourinho está no top mundial: pragmatismo, disciplina, meritocracia, coesão da equipa, tolerância zero com os caprichos e o egocentrismo. Ao contrário dos opinadores interessados que diariamente atacam o seu trabalho, a esmagadora maioria dos profissionais com que Mou trabalhou destacam a sua extraordinária qualidade. O seu adjunto no Real Madrid, Karanka recordava recentemente no As, a exigência de Mourinho no último jogo de uma Liga espanhola, já ganha pelo Real Madrid. O grupo estava relaxado e, segundo Karanka, Mou "obrigou-os" a vencer, para garantir que todos ficariam na história do clube, graças a uma vitória na Liga espanhola com record de pontos e de golos marcados.
Também este mês, na La Gazzetta dello Sport, Eden Hazard elegeu Mou como o melhor treinador com quem trabalhou (por comparação com outros três treinadores de topo: Conte, Sarri e Ancelotti).
A singularidade da oportunidade atual do Benfica, é a conjugação da massa de talento jovem do Benfica, com o núcleo de jogadores de qualidade mais experientes, recrutados nos mercados externo e interno, liderados por um treinador que, em condições normais, não estaria ao alcance de um clube da Liga Portuguesa. É este o momento para reconquistar uma posição dominante, para abrir um fosso entre o Benfica e os rivais. O clube tem o melhor reservatório de talento nacional e um treinador de excelência. A meu ver, importa renovar o seu vinculo contratual, independentemente da classificação final na Liga, na época em curso. É nisso que o Benfica deve pensar e acreditar: que, com estabilidade, o talento do Seixal e um scouting renovado, tirando proveito das novas ferramentas da Inteligência Artificial e com a capacidade e experiência de Mourinho, é possível levar o Benfica a uma nova etapa de grandeza.
De alguma forma e ressalvadas as diferenças financeiras óbvias, o Benfica tem de replicar o que o Manchester City realizou no seu plano interno, assente numa forte contribuição da formação do Benfica. Entre 2018 e 2024, venceu 5 de 6 Ligas inglesas, contando com o protagonismo de Bernardo Silva e Ederson Moraes desde 2017, de João Cancelo entre 2019 e 2023 e do líder Rúben Dias, a partir de 2020. A comandar o projeto estava e está outro treinador de topo, o arqui-rival de Mou, Pep Guardiola.
É nisto que o Benfica tem de pensar e acreditar.
Restará ainda um desafio importante: que na era da Proençocracia, as instituições do futebol respeitem o Benfica e que o Benfica se faça respeitar.
Nuno Paiva Brandão
Sócio 50.166