A ERA DA COMPETIÇÃO HÍBRIDA
No futebol nacional, tem-se assistido com uma frequência inaudita a situações em que o resultado do desempenho dos jogadores, é ultrapassado por outros protagonistas, constatação que resulta de verificar que, de forma consistente, os desfechos em campo não são apenas consequência do “hard power” das equipas, mas parecem derivar também do “soft power” dos clubes, da capacidade de influência exercida nas instituições e nos seus protagonistas. Sob este efeito, as competições nacionais podem mudar de rumo, modificando-se também em cascata a pressão mediática sobre as equipas e alterando-se os sentimentos dos adeptos em relação a jogadores, treinadores e dirigentes.
Neste século, a "financeirização" do futebol reconfigurou as suas fontes de soberania. Entre 2001 e 2025, o PIB português triplicou, enquanto que, em contrapartida, o Orçamento da FPF se multiplicou por 7. A expressão financeira do êxito do futebol, permitiu acomodar um escol burocrático de dirigentes, assessores e amplo staff no seio dos organismos responsáveis (FPF, LPFP, Conselho de Arbitragem). Este vasto aparelho burocrático, vem acompanhado por uma indisfarçável vontade dos dirigentes em estar no centro do palco. Note-se o inflamado discurso do Presidente da FPF - curiosa a cópia de um sound bite de um antigo PM: "Habituem-se!"- na cerimónia comemorativa da vitória dos jovens gigantes no Mundial Sub-17.
Temos assim, a infraestrutura do novo paradigma do futebol nacional: novos e amplos recursos financeiros, um imperial aparelho burocrático de suporte e um insaciável apetite pelo protagonismo.
Longe vão os tempos do Mundial de 1966, em que todos conheciam os jogadores, muitos identificavam o treinador, alguns sabiam quem era o selecionador e quase ninguém sabia quem era o Presidente da Federação.
Assim, a histórica soberania do “terreno” (não há melhor exemplo do que a monarquia absoluta do Rei Eusébio), coexiste agora com uma certa forma de soberania de “funcionamento”. Esta última aparenta resultar do posicionamento relativo de cada clube junto das novas castas burocráticas de dirigentes e dos respetivos gabinetes. As características do novo paradigma, favorecem a multiplicação de novas interconexões entre os aparelhos burocráticos e o ecossistema dos clubes. Em linguagem de marketing: mais "touchpoints" (pontos de contacto) de relevo, mais oportunidades de influência.
Um dos péssimos exemplos desta nova realidade vem de Espanha, onde, segundo a acusação do Ministério Público, a proximidade entre o FC Barcelona e um ex-Vice- Presidente do Comité Técnico de Árbitros (1994-2018), o Sr. Enriquez Negreira, gerou pagamentos de 8,4M de euros, num período de 17 anos, entre 2001 e 2018, supostamente a titulo de consultoria técnica e emissão de relatórios de arbitragens. A juíza de instrução já tem na sua posse todas as provas documentais desses pagamentos (24 cheques, livranças e ordens de transferência). Em tribunal, os ex- treinadores do Barça Luis Enrique e Ernesto Valverde declararam nunca ter recebido os supostos relatórios arbitrais.
Este caso constitui um paradigma do interior das fronteiras desta soberania dual, de onde se torna legítimo inferir que novas oportunidades de influência emergem e, porventura, novos instrumentos de dominação: quem sabe?
O que sim, se sabe, por óbvio e recorrente, é que a verdade do terreno de jogo, como fonte de soberania no futebol, definidora de quem lidera e domina e de quem é seguidor ou desafiador, está amiúde a ser suplantada pela soberania “funcional”. E, para o Benfica, os desafios da competição jogada, que já não são poucos, estão a ser superados pelos retos desta competição híbrida.
A contratação de Mourinho deu uma nova dimensão ao nosso potencial futebolístico e as contratações deste mercado de inverno deverão reforçá-lo. Contudo, na era da competição híbrida, é minha convicção que atuar apenas neste âmbito é claramente insuficiente e o Benfica não tem tido os atributos que lhe permitam responder às singularidades dos confrontos nacionais atuais.
Esperamos que, nesta matéria, o Presidente Rui Costa e a Direção, deixem de pulsar no botão de "Pausa" e pressionem o de "Fast Forward".
Nuno Paiva Brandão (Sócio 50166)