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O Benfica necessita recuperar os dividendos da estabilidade (por Nuno Paiva Brandão)

O BENFICA NECESSITA RECUPERAR OS DIVIDENDOS DA ESTABILIDADE

Se analisarmos as últimas 16 Ligas nacionais, compreendidas entre 2009/10 e 2024/25, e as separarmos em dois períodos distintos, encontramos perfis totalmente diversos. Entre 2009/10 e 2018/19 (10 campeonatos), a Liga foi um duopólio Benfica/FCP, em que o Benfica dominou com 6 triunfos e o FCP foi a força desafiadora com 4 vitórias. Já entre 2019/20 e 2024/25 (6 ligas), assistimos a uma arquitetura tripolar, em que o SCP dominou com 3 triunfos, seguido do FCP com duas vitórias e do Benfica apenas com uma, em 2022/23.

Consistentemente com a performance global nestes dois períodos, os indicadores médios de produtividade da equipa do Benfica baixaram significativamente do primeiro para o segundo período: -5,4% de golos marcados, +10% de golos sofridos e -12,4% na diferença entre golos marcados e sofridos.

Para percebermos os efeitos da estabilidade, observemos o que se passou com os principais goleadores do Benfica: entre 2009/10 e 2017/18 (9 épocas), o essencial da capacidade goleadora do Benfica esteve concentrada em apenas 6 jogadores: Cardozo, Saviola, Rodrigo, Lima, Jonas e Mitroglou, o que certifica não apenas a sua qualidade e, consequentemente o bom trabalho de scouting, mas também a duração da sua permanência na equipa, o fator estabilidade. Dessa época para a frente, com uma menor eficiência média goleadora (-5,4%), a aptidão para o golo dispersou-se fundamentalmente por 10 jogadores: Seferovic, Rafa, Félix, Pizzi, Carlos Vinicius, Darwin, Gonçalo Ramos, João Mário, Di Maria e Pavlidis.

Além desta dispersão, parcialmente causada por um acelerado novo ecossistema de venda-compra-nova venda-nova compra, a eficiência do scouting parece ter-se deteriorado, já que neste último período se registaram também as aquisições de vários "goleadores" que, infelizmente, não se vieram a afirmar no Benfica (Raul de Tomas, Waldschmidt, Yaremchuk, Tengstedt, Musa, Arthur Cabral e Marcos Leonardo).

Em resumo, passou-se de uma era ganhadora, em que se colheram os dividendos da estabilidade, com apenas 6 goleadores principais em 9 épocas, para uma era de declínio, com todos os indicadores de produtividade em baixa e com um leque de 10 goleadores principais em 7 épocas, aos quais se somaram mais 7 (!) contratações frustradas nessa mesma especialidade.

A conclusão a retirar da frieza dos números parece óbvia: o Benfica dominou o futebol nacional entre 2009/10 e 2018/19 porque havia qualidade (i) na equipa técnica - praticamente apenas tivemos dois técnicos: Jorge Jesus e Rui Vitória (com Bruno Lage a fechar a última época) e (ii) no plantel – equilibrado e com um leque de jogadores de indiscutível qualidade. Relembremos: jogadores como Cardozo, Maxi, Luisão, Salvio, Gaitan, Enzo Perez, Fejsa, Jonas, Lima, Samaris, Pizzi, Jardel, Grimaldo, entre tantos outros, eram esse garante de qualidade e, importantíssimo, a duração na equipa não era efémera, consubstanciando esses dividendos que pudemos recolher da estabilidade.

Ao contrário dos comentadores populistas e dos programas diários de televisão que tratam o futebol como uma atividade simplista, em que frequentemente desconsideram os treinadores, o futebol é um jogo altamente complexo em que as equipas, como comunidades que são, aprendem e desenvolvem, em conjunto, os processos do jogo. Aprender pela repetição, melhorando constantemente, sob a direção de um técnico competente é, em geral, a estratégia certa, mas interfere com o ecossistema vigente que pretende acelerar a financeirização do futebol.

Em matéria da dicotomia estabilidade/volatilidade, agora no plano dos treinadores, vale a pena observar a experiência do Real Madrid nos últimos 28 anos. Na viragem para este século, entre 1999 e 2003, o RM ganhou 2 Ligas espanholas e 2 Champions, sob o comando do veterano técnico Vicente Del Bosque. Florentino Pérez decidiu então "modernizar" a equipa técnica. O clube entrou numa era de instabilidade e teve 9 treinadores entre 2003 e 2009/10, vencendo apenas 2 Ligas e nenhuma Champions.

Mais tarde, as épocas gloriosas do RM, com várias Ligas e Champions conquistadas, corresponderam a anos de estabilidade com Mourinho, Ancelotti (2 vezes) e Zidane (2 vezes). Pelo meio, experiências efémeras e mal-sucedidas com Benitez, Lopetegui e, recentemente, com Xabi Alonso. O resumo é fácil de fazer: neste século, tiveram muito sucesso quatro grandes técnicos que usufruíram de períodos de estabilidade. E tiveram desempenhos medianos ou fracassos, treze outros técnicos em períodos tendencialmente curtos.

Já agora, talvez seja útil recordar quem é, na história do Real Madrid, um dos técnicos que alcançou o maior rácio de vitórias por jogo. Chama-se José Mourinho e obteve 71,9% de triunfos, num contexto competitivo em que se enfrentou também ao Barcelona de Guardiola e de Messi.

Nos adeptos dos clubes rivais e nos jornalistas ansiosos por mudanças no Benfica, nota-se uma efervescência em torno de José Mourinho, eu diria até, um forte desejo de que abandone o clube. Haverá também no ecossistema do clube, os "engenheiros sociais", adeptos de reestruturações sucessivas e de uma política recorrente de portas giratórias de entradas e saídas para técnicos e jogadores. Os nomes dos 7 "goleadores" pouco sucedidos, acima apontados, são um bom epitáfio a esta visão redutora.

Daqui formulo o meu desejo de que a Direção do Benfica não ceda às múltiplas pressões, sobretudo externas (estou a pensar nos empresários sempre ávidos de negócios chorudos) que causam enorme volatilidade e muitas incertezas e que valorize aquilo que, recordo, possibilitou a equipa ser dominante na segunda década deste século: um plantel de qualidade e equilibrado (com um scouting de topo), um técnico credenciado com um projeto estável e os jovens talentos da formação a terem oportunidades na equipa principal.

Nuno Paiva Brandão (Sócio nº 50.166)