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Como os benfiquistas recordarão Rui Costa (por Nuno Paiva Brandão)

COMO OS BENFIQUISTAS RECORDARÃO RUI COSTA

A década dourada, compreendida entre 2009/10 e 2018/19, encerrou-se com seis Ligas nacionais conquistadas, uma sólida presença na Europa e com um nível exibicional do agrado da massa adepta. O marco negativo do período, foi falhar um inédito pentacampeonato em 2017/18, fruto de um erro estratégico que levou o Benfica a reduzir os investimentos, justamente quando tinha todas as condições para estabelecer um domínio absoluto no futebol nacional. Mas, globalmente, foi um período formidável para os benfiquistas, gerador de entusiasmo e orgulho pelo clube.

Em julho de 2021, Rui Costa venceu umas eleições altamente participadas (mais de 40.000 votantes), com uns esmagadores 84% dos votos. No seu discurso de vitória, destacou "as responsabilidades acrescidas para si e para a sua equipa", e "a ambição e confiança no futuro". E definiu o objetivo geral: "o nosso objetivo é ganhar, ganhar sempre, em todas as competições desportivas, essa é a prioridade absoluta, tudo o resto tem como foco contribuir para que isso se concretize".

Com a legitimidade reforçada pelas eleições históricas de novembro de 2025, Rui Costa leva agora quase cinco anos na Presidência do Benfica. Infelizmente, os resultados no futebol fazem o clube regredir na direção da primeira década deste século. Entre 2021/22 e 2025/26, considerando as duas competições principais do futebol nacional, a Liga e a Taça de Portugal, o Benfica ganhou apenas um troféu (a Liga de 2022/23), ou seja, somente 10% dos títulos mais relevantes, expondo as fraquezas relativas da equipa e as vulnerabilidades das politicas definidas pela Direção. Paradoxalmente, quanto piores foram os resultados, mais cresceram as grandes proclamações da Direção: "aqui o único verbo que se conjuga é vencer" (Rui Costa, nos Galardões Cosme Damião). Se não existir uma inversão de rumo, em breve a comunicação propagandística, meticulosamente preparada, será tudo o que encontraremos no cesto dos títulos no futebol.

Mas, apesar dos esforços proclamativos da Direção, não podemos dizer que o que aconteceu neste período, não ocorreu. Não podemos deixar de apontar que se debilitaram fatores que antes conduziram o clube ao triunfo (nomeadamente a qualidade do scouting e do posterior recrutamento), que se abriram oportunidades para rivais até antes subalternos, que se energizou a concorrência e se reforçou a sua confiança.

Nestas cinco épocas, com investimentos muito avultados (cerca de 447M, segundo o Transfermarkt), o Benfica contratou, jogadores cuja performance e mentalidade competitiva ficou muito abaixo das expectativas (Yaremchuk, Tengstedt, Musa, Marcos Leonardo, Arthur Cabral, Jurasek, Kokçu, Rolheiser, Sudakov, Ivanovic). Foi dada uma prioridade absoluta ao mercado externo e a alguns jogadores já com elevada notoriedade (e com o correspondente preço alto): investimentos tão caros para tão escassos títulos!

Adaptando uma frase célebre de Kissinger, dir-se-ia que ter os empresários do futebol como inimigos é perigoso, mas tê-los como amigos é fatal.

Neste período, antes da muito necessária chegada de Mourinho, mais assustador que os problemas do plantel do Benfica, só mesmo as "soluções" encontrada para os seus problemas: depois de Tengstedt/Musa vieram Cabral/Leonardo, após Vlachodimos chegou o irregular Trubin, depois de Kokçu veio Sudakov, entre outras sucessões falhadas. Claramente, o Benfica leva um quinquénio com um desempenho muito abaixo do seu potencial e com abundantes erros de "casting".

Apenas por comparação, ao invés do Benfica, nesse período, o SCP contratou: Diomande (Mafra), Catamo (Amora), Morita (Santa Clara) e Trincão (por empréstimo inicial do Barça). E descobriu em equipas periféricas no estrangeiro: Gyokeres e depois Suarez, Hjulmand e Maxi Araujo. Estas contratações constituíram a base das equipas do SCP. Com políticas de scouting e de recrutamento inversas, o SCP gerou resultados opostos. E em matéria de Investimentos, o rival terá aplicado 329M (fonte: Transfermarkt), menos 26% que o Benfica, tendo sido bicampeão nacional em 2024/25.

Ao mesmo tempo, o Benfica conservou a sua capacidade de atração de talentos jovens e a aptidão para os desenvolver até ao topo das competições dos seus escalões etários, nomeadamente na Youth League e nas Seleções jovens. No entanto, nestes cinco anos, nunca se vislumbrou nas Direções de Rui Costa, a capacidade de definir um ambicioso plano a médio e longo prazo, que integrasse duradouramente alguns desses jovens de classe mundial, redefinisse objetivos de scouting e perfis competitivos de recrutamento externo, combinando eficientemente essas duas vertentes, para restabelecer o domínio do Benfica no futebol.

Numa ótica mais geral, quer na relação com as instituições do futebol, quer na reação aos enviesamentos arbitrais, como na aceitação lenta e passiva dos sucessivos inêxitos no futebol, a liderança complacente do Benfica, contrasta com um maior dinamismo e assertividade dos rivais. Não obstante os discursos e proclamações, na casa do futebol, o teto parece estar cada vez mais baixo para o Benfica.

Nestes cinco anos, o Benfica queria ganhar tudo no futebol. Em vez disso, ganhou (quase) tudo... no basquetebol (aliás, com grande mérito de Norberto Alves).

No contexto atual, o trunfo principal pode ser a capacidade de Mourinho, para, numa época plena, ser capaz de inverter o rumo deste quinquénio frustrante. Mas, também neste plano Rui Costa parece tíbio e hesitante. Foi demasiado lento a separar-se de Schmidt e Lage e, agora, é excessivamente lento a confirmar Mourinho como o pivot do projeto futuro do Benfica.

A janela de tempo está a fechar-se e, pela realidade destes anos de gerência, Rui Costa está a “assinar” como os benfiquistas o recordarão.

Nuno Paiva Brandão (Sócio nº 50.166)