A METASTIZAÇÃO DOS ERROS ARBITRAIS
Neste texto, não pretendo abordar as responsabilidades
relativas da arbitragem e das falhas próprias do Benfica, na dececionante
classificação atual da equipa na Liga. O meu objetivo, é apenas tratar a
recorrente monumentalidade dos erros de arbitragem, que abalam a confiança na
neutralidade da mesma e, consequentemente, na integridade das competições
nacionais.
José Mourinho, sintetizou os problemas com as
arbitragens, nas competições da época em curso, com o exemplo dos três jogos
disputados entre o Santa Clara e o SCP dizendo: "focando-me só - e tão só -
para não ir mais longe, em três jogos com o Santa Clara... está tudo aí".
Matematicamente, a probabilidade de uma moeda sem
defeito, ser lançada ao ar e cair consecutivamente por três vezes sobre a mesma
face, é de apenas 12,5%. Mas, para infortúnio do Santa Clara e dos rivais do
SCP e para benefício deste, nos três confrontos entre as duas equipas, a moeda
caiu sempre com a face SCP. Resulta curioso que nestes três desafios, os lances
erradamente decididos a favor do SCP, tenham sido realidades apenas observáveis
pelos respetivos árbitros, auxiliares e VAR.
Um pontapé de baliza transformado em pontapé de canto,
uma ausência de contacto convertida em grande penalidade e um tropeção torpe,
tornado em falta do contrário. Nenhum destes lances teve carácter
interpretativo. Como as imagens evidenciaram, foram apenas fantasias arbitrais.
Equívocos de “incompetentes”, que resgataram as debilidades momentâneas dos
nossos rivais…
José Mourinho tem razão: num concentrado de três
jogos, está contido o padrão de toda uma época. Mas onde é que se originam
estas deformações da verdade do jogo?
Há perguntas óbvias a fazer: porque é que estes
árbitros observaram realidades inobserváveis? Por que razão observaram (num
caso, durante largos minutos) ficções que não se passaram no terreno de jogo?
Que mão invisível os faz transcender a realidade física? São “prisioneiros” de
quê ou de quem?
Quando a arbitragem deixa de ser neutra e produz
decisões segundo um molde que fabrica sempre o mesmo tipo de acabamento, ela
sobrepõe-se ao jogo, aos jogadores e técnicos, tornando-se um inoportuno
protagonista. A arbitragem que enviesadamente molda a competição, envolve e
supera o esforço dos jogadores, apropria-se indevidamente do fio condutor da
história de cada desafio. É um excesso nefasto que obstrui a essência da
competição.
Estas arbitragens, ao observarem o inobservável ou ao
alterarem os critérios interpretativos sobre lances idênticos, fazem implodir
toda a possibilidade de uma experiência de jogo estável ao longo das
competições. E com isso, em vez de aproximarem o público do futebol, apenas o “desinscrevem”
dele.
Não se constata na LPFP ou na FPF grande incómodo por
esta metastização dos erros. Para organismos que necessitam de regular e
promover, nacional e internacionalmente, um "produto" tão marcado por
equívocos e desacertos maiúsculos, esta indiferença é surpreendente. Ou será
que os vícios estruturais constatados, suportam algum objetivo invisível? Só a
oligarquia organizacional reinante o saberá.
Por outro lado, a Direção do Benfica, que tem sido
vocal em relação às situações concretas, não parece orientar-se a outras ações
mais decisivas. Estas seriam provavelmente apoiadas por uma massa de
sócios absolutamente única, já que o descontentamento é grande e em aumento.
Infelizmente, parece abdicar da responsabilidade de, em face destas situações
distorcidas, ser uma liderança forte e transformadora. Poderá ser um erro
crasso: a situação do futebol profissional é tão dececionante, que inevitavelmente
levará outros a pensar em formas alternativas mais eficientes de defender o
clube.
Nesta época, já não haverá condições para se vencer a
Liga, mas ainda há tempo para a Direção corrigir o tíbio caminho de resposta
escolhido e prevenir a continuidade de arbitragens tendenciosas e injustas.
Não se pode lidar com a metastização dos erros de
arbitragem, apenas com o protesto. Desde a final da Taça de Portugal da época transata,
que são conhecidos os limites dessa oposição.
Um erro de arbitragem pontual é um incidente. Mas uma
sequência de erros, sempre com a mesma cor, é um destino construído.
O Benfica tem poder suficiente para alterar a
situação. E para voltar a entusiasmar e a dar esperança aos sócios e adeptos.
Mas apenas se a Direção for competente, forte e determinada.
PS – este artigo nada tem a ver com a incompreensível nomeação de João Pinheiro para o derby de Alvalade (também pelos erros que já teve nesta época e um deles até o refiro acima). Como se depreende, os benfiquistas têm memória, alguns até podem perdoar, mas não esquecem.
Nuno Paiva Brandão
(Sócio 50.166)