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A metastização dos erros arbitrais (por Nuno Paiva Brandão)

A METASTIZAÇÃO DOS ERROS ARBITRAIS

Neste texto, não pretendo abordar as responsabilidades relativas da arbitragem e das falhas próprias do Benfica, na dececionante classificação atual da equipa na Liga. O meu objetivo, é apenas tratar a recorrente monumentalidade dos erros de arbitragem, que abalam a confiança na neutralidade da mesma e, consequentemente, na integridade das competições nacionais.

José Mourinho, sintetizou os problemas com as arbitragens, nas competições da época em curso, com o exemplo dos três jogos disputados entre o Santa Clara e o SCP dizendo: "focando-me só - e tão só - para não ir mais longe, em três jogos com o Santa Clara... está tudo aí".

Matematicamente, a probabilidade de uma moeda sem defeito, ser lançada ao ar e cair consecutivamente por três vezes sobre a mesma face, é de apenas 12,5%. Mas, para infortúnio do Santa Clara e dos rivais do SCP e para benefício deste, nos três confrontos entre as duas equipas, a moeda caiu sempre com a face SCP. Resulta curioso que nestes três desafios, os lances erradamente decididos a favor do SCP, tenham sido realidades apenas observáveis pelos respetivos árbitros, auxiliares e VAR.

Um pontapé de baliza transformado em pontapé de canto, uma ausência de contacto convertida em grande penalidade e um tropeção torpe, tornado em falta do contrário. Nenhum destes lances teve carácter interpretativo. Como as imagens evidenciaram, foram apenas fantasias arbitrais. Equívocos de “incompetentes”, que resgataram as debilidades momentâneas dos nossos rivais…

José Mourinho tem razão: num concentrado de três jogos, está contido o padrão de toda uma época. Mas onde é que se originam estas deformações da verdade do jogo?

Há perguntas óbvias a fazer: porque é que estes árbitros observaram realidades inobserváveis? Por que razão observaram (num caso, durante largos minutos) ficções que não se passaram no terreno de jogo? Que mão invisível os faz transcender a realidade física? São “prisioneiros” de quê ou de quem?

Quando a arbitragem deixa de ser neutra e produz decisões segundo um molde que fabrica sempre o mesmo tipo de acabamento, ela sobrepõe-se ao jogo, aos jogadores e técnicos, tornando-se um inoportuno protagonista. A arbitragem que enviesadamente molda a competição, envolve e supera o esforço dos jogadores, apropria-se indevidamente do fio condutor da história de cada desafio. É um excesso nefasto que obstrui a essência da competição.

Estas arbitragens, ao observarem o inobservável ou ao alterarem os critérios interpretativos sobre lances idênticos, fazem implodir toda a possibilidade de uma experiência de jogo estável ao longo das competições. E com isso, em vez de aproximarem o público do futebol, apenas o “desinscrevem” dele.

Não se constata na LPFP ou na FPF grande incómodo por esta metastização dos erros. Para organismos que necessitam de regular e promover, nacional e internacionalmente, um "produto" tão marcado por equívocos e desacertos maiúsculos, esta indiferença é surpreendente. Ou será que os vícios estruturais constatados, suportam algum objetivo invisível? Só a oligarquia organizacional reinante o saberá.

Por outro lado, a Direção do Benfica, que tem sido vocal em relação às situações concretas, não parece orientar-se a outras ações mais decisivas.  Estas seriam provavelmente apoiadas por uma massa de sócios absolutamente única, já que o descontentamento é grande e em aumento. Infelizmente, parece abdicar da responsabilidade de, em face destas situações distorcidas, ser uma liderança forte e transformadora. Poderá ser um erro crasso: a situação do futebol profissional é tão dececionante, que inevitavelmente levará outros a pensar em formas alternativas mais eficientes de defender o clube.

Nesta época, já não haverá condições para se vencer a Liga, mas ainda há tempo para a Direção corrigir o tíbio caminho de resposta escolhido e prevenir a continuidade de arbitragens tendenciosas e injustas.

Não se pode lidar com a metastização dos erros de arbitragem, apenas com o protesto. Desde a final da Taça de Portugal da época transata, que são conhecidos os limites dessa oposição.

Um erro de arbitragem pontual é um incidente. Mas uma sequência de erros, sempre com a mesma cor, é um destino construído.

O Benfica tem poder suficiente para alterar a situação. E para voltar a entusiasmar e a dar esperança aos sócios e adeptos. Mas apenas se a Direção for competente, forte e determinada.

PS – este artigo nada tem a ver com a incompreensível nomeação de João Pinheiro para o derby de Alvalade (também pelos erros que já teve nesta época e um deles até o refiro acima). Como se depreende, os benfiquistas têm memória, alguns até podem perdoar, mas não esquecem.

Nuno Paiva Brandão
(Sócio 50.166)