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Parar no sina de stop (por Nuno Paiva Brandão)

PARAR NO SINAL DE STOP

Nos desafios mais importantes recentemente jogados pelo Benfica, o desempenho da equipa foi vítima da instabilidade e vulnerabilidade de alguns dos jogadores. Em jogos muito competitivos, o excesso de "erros individuais não forçados", paga-se caro. Foi assim nos confrontos a eliminar com o Real Madrid e, também, na disputa, possivelmente decisiva, com o FCP na Luz.

Esta acumulação de erros, com pesadas consequências, tem também sido causada, a meu ver, por discutíveis opções nos perfis contratados nos últimos anos. Limitando-nos ao passado muito recente, o Benfica privilegiou, nas suas contratações mais dispendiosas (em valor do passe e/ou em montantes salariais), o perfil do “talentoso episódico". O tipo de jogador que entusiasma os adeptos nos dias bons, mas que pode ser desastroso, nos dias menos bons. E que, em qualquer caso, pode comprometer o equilíbrio e a eficiência global da equipa. Kokçu e um Di Maria em final de carreira, são exemplos recentes. Sudakov e Rafa, serão provavelmente os melhores exemplos atuais deste perfil.

Além destes, o irregular Trubin e até o capitão Otamendi, têm sido outros exemplos do padrão de alternância entre uma grandeza episódica e frequentes falhas incompreensíveis. Esta bipolaridade da performance individual de uma certa tipologia de contratações "vistosas", tem contribuído para alguns fracassos dolorosos.

Sejamos frios e objetivos, com base em estatísticas: nesta década (contando cinco épocas desportivas completas e a atual com 26 jornadas), em 196 jogos na Liga, o Benfica é apenas o terceiro clube com 459 pontos obtidos, de um total de 588 pontos possíveis, um aproveitamento médio de 78%. O SCP lidera esta "Liga estatística", com mais 19 pontos que o Benfica (e menos um jogo) e com uma taxa de aproveitamento de 81,7%. O FCP situa-se no segundo lugar com 468 pontos e um rácio de eficácia de 79,6%. Estas são diferenças desfavoráveis bem significativas num período longo de quase seis épocas desportivas e que deveriam merecer profunda reflexão pelos nossos responsáveis.

Neste contexto, confio que a Direção do Benfica, entenda que a sua missão não é apenas a de criar as condições para se vencer o 39º campeonato, mas sobretudo a de restaurar o domínio do clube no futebol nacional. Ora, no futebol, se o modelizarmos simplificadamente em dois eixos, temos um eixo vertical, perfeitamente objetivo, o dos resultados e um eixo horizontal mais subjetivo, relacionado com as exibições produzidas e com o entusiasmo gerado na massa adepta. Grandes equipas como o histórico Benfica de Eusébio ou o Real Madrid de CR7, situaram-se na intersecção alta dos dois eixos: grandes conquistas, grandes exibições e um enorme entusiasmo. Contudo, no apogeu do futebol italiano, houve equipas "resultadistas" com grandes resultados e exibições modestas e pouco entusiasmantes. Em sentido oposto, tivemos em Portugal, no pós-geração de Eusébio, um período de "vitórias morais", com boas exibições e escassos resultados.

Ora, o Benfica desta década dos anos 20, na maioria das suas contratações (Aursnes é um feliz contra-exemplo), tem privilegiado uma estratégia horizontal: contratações caras e vistosas ou de grandes nomes numa etapa avançada da sua carreira, para estimular os adeptos, priorizando o fulgor mediático. Mas infelizmente, provavelmente em consequência desse momento das suas carreiras (Di Maria e Otamendi), ou do seu perfil inconstante no alto rendimento (Kokçu, Sudakov, Rios e o atual Rafa), as suas contribuições irregulares e descontinuas, não têm trazido os resultados desejados.

Para restaurar a supremacia do Benfica no futebol nacional parece necessário voltar a colocar pragmaticamente em primeiro plano o eixo vertical.  Retornar a perfis, talvez menos mediáticos, mas mais fiáveis em matéria de constância no alto rendimento. Na década anterior, abundam os bons exemplos: entre muitos outros, Garay e Jardel, na defesa, Witsel, Matic, Enzo Pérez e Pizzi no meio-campo, Salvio, Gaitan e Lima no ataque. Quando das contratações, não trouxeram estrondosas manchetes na imprensa, mas contribuíram inequivocamente para muitos títulos do clube. A sua qualidade e constância, bem como o encaixe do seu talento individual no equilíbrio da equipa, favoreceram a continuidade do domínio do Benfica nessa década.

Para restaurar a supremacia do Benfica, também ajudaria voltar a encontrar goleadores eficientes como Jonas, Cardozo, Lima ou Rodrigo. Apesar de um bom e trabalhador Pavlidis, uma exceção no rendimento da massa de avançados contratados no período em análise, os goleadores mais decisivos das últimas Ligas, estiveram e estão ao serviço da concorrência.

Estou convencido que com Mourinho no comando e oferecendo estabilidade ao seu projeto, existem as condições para restabelecer o domínio do Benfica. Mas para isso é necessário que o clube (e o ecossistema envolvente) modifique o paradigma de apostar na grande contratação mediática de 25 ou 30 milhões de euros, destinada a entusiasmar os adeptos, mas que posteriormente revela ter um perfil competitivo inconsequente, privilegiando quiçá, mercados diferentes, mas de produtividade mais assegurada (por exemplo, os mercados nórdicos têm dado recentemente ótimos jogadores ao futebol português). Como também é provavelmente necessário, substituir a opção por grandes nomes no ocaso das suas carreiras, em favor da aposta nos nascentes talentos da formação, que serão grandes nomes no futuro.

No futebol, os resultados são soberanos. Após seis anos frustrantes, todos podem ver o sinal de Stop estampado na política de grandes contratações "mediáticas". Não é mais possível continuar a anunciar bombons para a sobremesa e servir apenas a embalagem.

Nuno Paiva Brandão (Sócio nº 50.166)