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As leis da física, do jogo e do bom senso (por José Manuel Azevedo)

 As leis da física, do jogo e do bom senso

1. Um dos temas que me tem feito, e muito, reflectir nos últimos tempos, enquanto apaixonado do futebol (e antigo atleta federado de voleibol) tem especificamente a ver com as incoerências de critérios utilizados pelos árbitros, em Portugal ou no estrangeiro, quando da apreciação de lances quantas vezes controversos, sobretudo naqueles dos quais podem resultar ou não grandes penalidades, o que leva a que me interrogue sobre quantos desses árbitros praticaram futebol na vida.

2. Em especial, porque tem havido muita discussão sobre a existência ou não de “casualidade” quando a bola bate na mão ou no braço dum jogadorNos meus tempos de adolescente, um lance em que, dentro da grande ou pequena área, a bola batia “por ressalto” no braço de um adversário, não havia qualquer discussão - a intervenção era considerada não deliberada, não devendo, assim, ser punida. Hoje, com as noções do aumento da volumetria do corpo e da “posição natural”, tudo se complicou; mais, quantas vezes são os atacantes a aproveitar-se das diferentes posições do braço ou da mão do adversário para, de forma deliberada, pontapear a bola na sua direcção, provocando o toque e assim a grande penalidade? Se há jogadores que conseguem nos treinos, para dar um exemplo, rematar duas ou três vezes seguidas à barra duma baliza, qual a dificuldade que terão em pontapear a bola em direcção ao braço ou à mão dum adversário que está a meio metro?

3. Ora bem, isso levou-me a atentar sobre o que ditam as leis da física e as do jogo, para evidenciar quanto falta de bom senso a quem dirige uma partida de futebol, na qualidade de árbitro ou de VAR.

4. O que ditam então as leis da física quanto à utilização dos braços na formação de um salto para disputar uma bola? Que, quando saltamos, apesar de serem os músculos das pernas os principais responsáveis pela impulsão, os braços também desempenham um importante papel na geração de força e da altura a que o corpo se eleva. Com efeito, usando os braços como ajuda ao salto, podemos: 

    i) aumentar a força da impulsão, gerando mais força e velocidade (basta pensar-se nos atletas que praticam salto em comprimento, triplo salto, ou salto em altura – algum deles forma a corrida ou salta com os braços colados ao corpo?); 

    ii) melhorar a coordenação, uma vez que o movimento dos braços ajuda a manter o equilíbrio, permitindo que saltemos mais alto e com maior controlo sobre o corpo e a coordenação durante o salto - por curiosidade, já alguém experimentou colocar dois simples dedos nas costas de um adversário, nem que seja “ao de leve” enquanto este salta?

    Nota: alguém reparou como é feita a chamada para um salto à rede no voleibol, em particular para fazer um remate? Há algum jogador que a faça sem a utilização não de um, mas dos dois braços, que aliás devem estar em paralelo no momento em que ele atinge a maior altura?

5. Estudos científicos mostram que o uso dos braços pode aumentar a altura do salto em cerca de 10% a 20% em comparação com saltar sem o movimento deles. Concretizando, quando o Cristiano Ronaldo saltou 71 cm, atingindo 2.56 m de altura de salto num jogo em Itália, alguém o viu fazê-lo numa simples impulsão vertical, sem utilização dos braços?

6. Isto leva-nos agora à questão das leis do jogo: dizem as aplicáveis em 2025/2026 que um  jogador é considerado como tendo o corpo em volumetria de forma “não natural” quando a posição da sua mão ou braço não é consequência ou justificável com a sua movimentação corporal para aquela situação específica. A clareza deste conceito leva-me à questão fulcral deste artigo: quando o António Silva (já várias vezes penalizado por toque de bola no braço ou na mão) saltou com o Barbero, jogador do Arouca, não estava ele a movimentar-se de forma necessária a disputar a bola de cabeça? É a isso que se chama braço numa posição “não natural”? Estando ele a formar o salto até mais “em extensão” do que “em altura”, como poderia ele cortar a bola sem que os braços estivessem naquela posição (aliás, comparável com a dos braços do Barbero)? E sobre cortar de forma clara uma bola que ia no caminho da baliza? Alguém poderá afirmar, em sã consciência, que se a bola não tivesse tocado no braço do jogador seria golo? 

 Por recurso ao absurdo, será que os jogadores de futebol deverão ser forçados a jogar com as mãos atadas atrás das costas, para não aumentar a volumetria do corpo?

7. A René Descartes, filósofo francês do século XVII, é atribuída a frase “Le bon sens est la chose du monde la mieux partagée”, que se traduz para “o bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída”. Temos mesmo a certeza disto? Sim, de facto todos reclamamos que o temos, mas será assim? Infelizmente, instalou-se uma cegueira tal na conclusão de que quando a bola bate no braço tem de ser obrigatoriamente penalt(em que verificamos que demasiados árbitros alinham, quiçá por comodidade) que me permito afirmar que eles se esquecem do bom senso com que foram elaboradas as leis do jogo. Daqui o meu apelo sobretudo aos responsáveis de arbitragem: reciclem, treinem e, utilizando casos concretos, preocupem-se em transmitir a árbitros e VARs o que entendo ser fundamental para além da aplicação das leis do jogo: a coragem de também usarem bom-senso nas suas decisões!

José Manuel Azevedo (Sócio 48.324)