O “Inferno da Luz”
1. Não tendo feito qualquer pesquisa sobre
a origem da expressão “Inferno da Luz” – que, por certo, existirá na informação
oficial do clube - é evidente que ela se relaciona com o ambiente “hostil” que
se cria no estádio sempre que um adversário nos visita.
2. Não gosto do adjectivo “hostil”,
confesso, porque fui educado no respeito pelos valores da sã competição e
porque, mais do que ser “hostil” para o adversário – para perceber o que isso
significa basta recorrermos aos recentes exemplos no Estádio do Dragão,
inclusivé fora do estádio – interessa é apoiar a equipa do princípio ao fim,
qualquer que seja o resultado que se verifique.
3. Compreendo perfeitamente a sensação
de amargura quando se está a perder, sendo justamente aí que se devem verificar
as manifestações de apoio à equipa, como sempre sucede (não creio que haja
alguém que me possa contrariar) nos estádios britânicos, sejam eles em
Inglaterra, Escócia, Irlanda ou País de Gales. O mítico cântico em Anfield,
“You’ll never walk alone!” é para mim o exemplo mais flagrante do que é apoiar
verdadeiramente a equipa de que se é adepto! Nada impede que, depois dos jogos,
se ouçam comentários de desiludidos com as derrotas, mas o certo é que, no
decorrer das partidas, eles não se cansam de cantar ou mesmo entoar cânticos de
elogio a este ou aquele jogador.
4. Regressando ao tema deste artigo, o
que é que posso dizer sobre o “Inferno da Luz”, uma mera opinião de quem é
sócio há dezenas de anos e presenciou inúmeros jogos, tanto no antigo estádio –
que chegou a comportar 135 mil “almas” num Benfica - Porto ou 127 mil na final do Campeonato de
Mundo de Juniores, ganho por Portugal ao Brasil, com golo de Rui Costa, numa
decisão da marca de grande penalidade - como no atual, inaugurado em 2003 para
o Campeonato da Europa de 2004, ganho infelizmente pela Grécia?
Parece inquestionável que
a expressão “Inferno da Luz” pode ter conotações positivas ou negativas,
consoante as perspectivas.
a. Que sim, no sentido positivo, termos
a Luz a abarrotar e a apoiar incessantemente, hoje com 66 mil, ontem com 130
mil, amanhã com 80 mil, cria indiscutivelmente um obstáculo infernal a
ultrapassar…
b. Admitindo que não tenha presenciado
todos os importantes jogos que se desenrolaram na conhecida “Catedral”, e como
exemplos bem positivos do que considero ser um inferno, relembro um jogo contra
o M. United em que a equipa contou com o apoio do 1º ao último minuto, bem como
os dois mais recentes jogos com o Real Madrid…Aliás, até no Bernabéu se ouviram
mais os benfiquistas do que os adeptos da equipa adversária!
c. Inferno, no sentido negativo, é,
para mim, ver um nosso ex-jogador ser apupado sempre que o seu nome é anunciado
no sistema sonoro como elemento duma equipa adversária ou quando é substituído (admitindo
que o seu comportamento connosco tenha sido sempre correcto);
d. Ou ver os nossos adeptos lançarem
tochas para o relvado, provocando um “nevoeiro” que a todos prejudica, além de
significar multas dezenas ou até centenas de milhares de euro ao clube que
supostamente apoiam, isso é também para mim inadmissível, no fundo “infernal”;
e. Ou ainda aceitar, impávida e
serenamente, que a Polícia e a segurança do estádio não impeçam a entrada de
artefactos pirotécnicos (diz-se, aliás, que há “acordos” entre os vigilantes e
os “grupos organizados de adeptos” no sentido de que estes os coloquem nas
bancadas antes do início dos jogos) e sentir que o Benfica nada faz a esse propósito,
custa muito...
f. Ou
ouvir, como ouvi no Domingo passado, no jogo com o Porto, benfiquistas na
bancada a causticar os nossos jogadores quando gritavam “Olé!” sempre que os jogadores do
adversário trocavam a bola entre si, sem que a conseguíssemos interceptar -
aqui está outra forma de inferno, muito grave, porque são tiros nos pés!;
g. Assistir ao transformar de
investimentos em desperdício de dezenas de milhões em aquisições (com chorudas
comissões) sem qualquer correspondência em títulos e, desta forma, desvalorizar
esses ativos, ao invés de apostar no enorme potencial da nossa formação, é
outro exemplo de inferno no péssimo sentido
h. Altamente preocupante, mesmo infernal
para o sentido deste texto, é, também, constatar o rumo que o Benfica parece
estar a tomar, de aparente desnorte da sua gestão, que, a não se invertido, nos pode retirar a hegemonia de que desfrutámos durante muitos anos e
“afundar-nos” por outros tantos ...
i. Ah, e falando agora de “amadoras”, algumas perguntas: alguém me sabe dizer qual a assistência média dos jogos, por modalidade, que se disputam nos dois pavilhões de que dispomos? E queremos construir um outro com capacidade para 11 mil espectadores, de mais do que discutível retorno financeiro (só se for para espectáculos musicais – para o que Lisboa já tem o Meo Arena - ou para eventos de âmbito internacional, tendo por exemplo esporádico um qualquer Europeu, seja de futsal ou de andebol...)? E quem financia essas modalidades, não é o futebol? Sem títulos alcançados pela equipa senior masculina que nos assegurem a presença na Champions, como faremos esse financiamento? Como atrairemos os melhores jogadores para as diversas equipas de andebol, basquetebol, futsal, hóquei em patins, voleibol? O que sucederá então ao ecletismo que queremos manter?
5. Enfim, manifestada a minha amargura
enquanto sócio e adepto, resta-me esperar que alguém com competência
profissional – não apenas porque o futebol é cada vez mais um negócio –
estabeleça uma estratégia de médio prazo que conduza o clube com a dimensão do
Sport Lisboa e Benfica ao lugar que merece! Senão, o “Inferno da Luz” passará a
ser conhecido por “Inferno na Luz”!
José Manuel
Azevedo (Sócio nº 48324)