Do mal o menos…
1. Ficou uma sensação de sabor amargo. Ficou a convicção que se o jogo durasse mais 10’ ou 15’, se calhar até virávamos o jogo. Ficou a sensação (e a convicção, quase certeza) de que se Aursnes jogasse, o jogo era ou teria sido sido muito diferente. Mas, acima de sensações ou convicções, ficou a certeza de que este plantel está super espremido, mesmo que afetado por lesões.
O empate tem sempre sabor a fel quando obrigatoriamente se tem de ganhar. Mas como o jogo correu, depois da evidente supremacia da 1a parte do FC Porto, uma equipa muito bem trabalhada e construída pelo seu treinador, uma equipa veloz e “com peso” o empate soube a ouro. A vontade de criticar é imensa, também o farei em tempo oportuno (como Mourinho o fez “a quente”), mas começo por tecer loas ao espírito de luta da equipa, à tremenda garra e alma com que sempre lutou, à 2a parte que nos deu como certeza que com um janeiro mais cuidado nos reforços, a equipa poderia almejar outros voos.
A 1a parte foi demasiado frouxa para merecer ser comentada. Muitos erros de posicionamento, sobretudo no miolo, muitas perdas de bola no miolo e no ataque, 2 golos do Porto a aproveitar desequilíbrios primários e concluídos com classe por jogadores jovens e poderosos. A 2a parte foi melhor, porque Mourinho corrigiu muita coisa no intervalo, a começar certamente pelas injeções que terá dado para recuperar a confiança dos jogadores. As substituições que fez, sobretudo Lukebakio e Barreiro, mas também Ivanovic, trouxeram criatividade e força ao ataque e os 2 golos apareceram. O último minuto trouxe um pênalti de VAR, mas daqui já pouco podemos esperar. Mais 10’ e até poderia ser…
2. Sobre o jogo, não creio que seja útil entediar quem lê estas linhas. Mas sobre o pós-jogo, algo há ainda a dizer. Vimos um Mourinho nervoso ou irritado na conferência de imprensa, talvez pelas palavras ofensivas de um qualquer idiota pertencente aos quadros do FC Porto que o catalogou de “traidor”, à boa maneira latino-americana. Estranhamente ferido, Mourinho veio dar importância ao assunto, trazendo-o desnecessariamente para a praça pública e demonstrando ter ficado afetado ao reivindicar o seu inequívoco profissionalismo e esquecendo o velho ditado que “os cães ladram mas a caravana passa” ou a velha máxima de que “só nos ofende quem nós queremos”.
Daqui para a análise do jogo, foi um pulinho e foi extremamente certeiro. Fosse ele comentador e não faria melhor. Ficou bem explicadinho porque a 1a parte foi desastrosa, porque “com Aursnes a música é outra”, porque com estes dois (Rios e Enzo) perdemos demasiadas bolas, porque há jogadores limitador a 15’ ou 20’ nas pernas, porque como nos golos sofridos cometemos erros posicionais, etc, tudo ao detalhe. Ainda como se alguém, certamente no interior do Benfica não tivesse percebido, falou em Ferraris ou McLarens que existem no adversário, para além de jogadores possantes nesse plantel. Fez um desenho tão explícito que qualquer miúdo que o tenha ouvido ficaria doutorado em futebol.
Sobrou uma dúvida: depois de toda a amargura a roçar uma revolta surda que perpassa na sua voz, depois da lição (pelos exemplos positivos e negativos) que deu a apontar o caminho para o que considero ser o seu projeto para a equipa de futuro do Benfica, será que ele sente existirem condições internas para suportar a visão que possui? Ou teve estes desabafos por se sentir só e desacompanhado e por descrer na capacidade diretiva de o secundar, de o apoiar, de lhe dar “argumentos” (leia-se jogadores) tal como, para não ir mais longe, o fez o FC Porto a Farioli?
A resposta está na Direção. Hoje já é tarde para a Direção se manifestar com clareza no que pretende e estes timings serão cruciais, também para sustentar o sonho mínimo do 2 lugar no campeonato. Benfica não se gere com indefinições (que teve como janeiro um bom exemplo) mas com clareza sustentada num qualquer projeto que seja ambicioso e à altura da sua história. Tem a resposta Rui Costa - ou, mais do que resposta, fica aqui o repto a quem foi eleito por 66% entre 93 mil Sócios.
PS. Voltámos a ter os malfadados fumos durante os jogos. Não antes, não durante os intervalos a animar a malta, mas a interromper jogos. A coisa até se resolveria com facilidade: interrompe-se o jogo que só recomeça quando o setor da bancada de onde foram originados esses fumos for esvaziada. Simples, eficaz, serviria de lição, mas será, quiçá, impopular. Continuemos então assim, a interromper jogos, porque uns quantos acham que apoiar é isto.
Manuel Boto (Sócio 2.794)