Não há coração que aguente…
Este sábado, foi, do ponto de vista pessoal, um dia muito especial - um dia de recordar memórias de um tempo em que fui jovem, algures por 1971/72, em que por carolice iniciei com um conjunto de jovens com idade de iniciados uma história de 32 anos que foi quanto durou o andebol do (Liceu) Pedro Nunes. Um dos antigos, daqueles que iniciaram comigo esta epopeia, lembrou-de lançar um livro sobre esta aventura (“Pedro Nunes, a vida toda numa bola de andebol”) durante um jantar comemorativo desses anos bem vividos que perduram para sempre na memória de centenas ou talvez milhares que envergaram essa camisola ligada ao Liceu onde andei.
Foi assim que vi o jogo do Benfica em Arouca, maioritariamente entre sportinguistas que circunstancialmente me rodeavam, todos muito simpáticos comigo enquanto decorria o jogo, certamente convencidos que se cavaria o fosso pontual para o nosso rival. Imaginam o meu sorriso amarelo, talvez contagiado pela cor das camisolas do Arouca, a sofrer com a inoperância confrangedora do nosso ataque durante a maior parte do jogo. Um sufoco! Até que veio o golo de Ivanovic, autenticamente pelo buraco da agulha e os sorrisos amarelos mudaram de rosto - passando eu a um sorriso de felicidade, simultaneamente complacente com o desgosto daqueles que julgavam que a classificação do campeonato estava arrumada. Até as fotografias finais que tirei espelham bem a alegria libertada desse sofrer durante 90’…
Passemos brevemente ao jogo. Um pênalti a abrir, alegadamente pelo braço do António estar em posição “não natural” e pressurosamente marcado por um VAR rigoroso (Pedro Ferreira) que se calhar nunca jogou à bola, ou se jogou, conseguia o prodígio de conseguir saltar com os seus braços bem agarradinhos ao corpo. Um golo saído do nada, a dar um valente “soco” na moral da equipa, há muito a jogar sob brasas num campeonato onde falhar qualquer ponto até Alvalade pode ser o fim dos sonhos que nos restam. Um lance dali a pouco, onde o diligente VAR não vislumbrou um agarrão a Pavlidis e um resto da 1a parte, a querer sem ponta de lucidez. Quando qualquer coisa boa lá saía no meio do marasmo, a concretização não existia, pecha de demasiados jogos.
A 2a parte foi diferente. Ou porque tomaram um duche frio a arrefecer ideias ou porque Mourinho se conseguiu fazer ouvir desde o autocarro onde se encontrava (dado que um absurdo castigo o afastou do banco), a equipa que regressou veio com outra cabeça, também com o decorrer do tempo a conseguir correr bem mais do que os jogadores do Arouca e as oportunidades lá começaram a surgir, como sempre a maioria desaproveitada. A excelente cabeçada de Rios a centro de Schjelderup empatou o jogo e, no final, no tudo por tudo, com jogadores frescos, Ivanovic, bem servido por Prestianni, fez o golo de ângulo muito difícil, dando-nos uma vitória mais do que justa.
Regressado a casa vi o jogo com calma e estou convicto que múltiplas ideias que tenho sobre as razões de um temporada com altos e baixos, terão absoluta razão de ser. Nesta altura da época, nada há a fazer, apenas gerir o presente (porque os plantéis estão fechados desde janeiro), sobretudo a multiplicidade de lesões - mas, com sinceridade, considero terem existido múltiplos erros de planeamento que ao menos esperamos que nos sirvam de lição, a começar por se ter insistido na fórmula “Lage” para se iniciar a época. A partir daqui, “o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”.
A contratação de Mourinho ditada por razões desportivas e eleitorais (na minha opinião), trouxe tanto esperanças como múltiplas dúvidas entre os Associados. Aqueles que acreditavam que Mourinho tinha uma varinha mágica para inverter o rumo dos acontecimentos rapidamente se desiludiram perante uns quantos inesperados empates, os que dele duvidavam cimentavam as suas certezas sobre o que entendiam ser um erro de casting. A Champions ainda nos trouxe umas inesperadas alegrias e até se percebe que a equipa tem hoje um fio de jogo, servido por um plantel com valia, no entanto longe de corresponder, em múltiplos casos, aos avultados investimentos efetuados.
Agora? Tentar no mínimo o 2o lugar no campeonato. A estrelinha em Arouca pode ser um bom augúrio para o objetivo. Outro sinal que pessoalmente registei com satisfação foi a alegria da celebração da equipa quando do golo de Ivanovic, demonstrativa de um coletivo fundamental para se construírem vitórias.
Mas falta o principal - a certeza de que esta Direção tem um projeto a médio e longo prazo, sustentado num timoneiro que pense o futuro. Se Rui Costa pensa em Mourinho, que já conhece muito bem “os cantos à casa”, então que o faça inequivocamente constar. Se pensar em qualquer outro que certamente irá precisar de tempo para conhecer o plantel e propor ajustes, existe o risco de adiarmos o 39 e, logicamente, o futuro, a começar pelo dele como Presidente.
PS. Algo ainda, contudo, me faz confusão - o desperdício da janela de janeiro foi motivado por falta de dinheiro ou de apenas de visão, porque o mercado tinha alternativas, como se viu pelos reforços cirúrgicos dos rivais?
PS 2 - Alguém me explica a razão pela qual a equipa B tem um sistema tático (3.5.2) diferente da equipa A? Tenho de colocar de lado especulações como a de se prepararem mudanças para o futuro porque seria incompreensível, mas se a explicação for a de existirem coutadas, é intolerável.
Manuel Boto (Sócio 2794)