RE(A)PITO DOURADO
Segundo um intelectual revolucionário do século XIX, " a história repete-se, a primeira vez como tragédia, depois como farsa". Passados 175 anos, esta frase parece reflectir com precisão, os acontecimentos no futebol português neste século.
Depois do escandaloso Apito Dourado, de tão limitadas consequências face às ações então perpetradas, temos agora esta repetição, com o último ponto focal no Estádio do Dragão, no passado dia 20. As inúmeras decisões arbitrais equivocadas, já amplamente descritas e comentadas por diversos especialistas, constituíram um substancial acervo de absurdos (ex. o cartão amarelo a um ensanguentado Prestianni por reclamar da violência sofrida) e situações caricatas (ex. o cartão amarelo, em vez do óbvio cartão vermelho, a Gabri Veiga, após um pisão brutal e prolongado a Bah). No total, 8 situações caricaturais configuraram esta farsa.
Em artigo anterior, inventariei um conjunto de decisões arbitrais que, sucessivamente, haviam beneficiado o FCP, indicando que esses pontos distintos (cada um representando uma vantagem indevida), definiam uma trajetória única no espaço do nosso campeonato. Ora, como a Geometria ensina, as retas são infinitas. Cabe, em primeira linha, ao mundo do futebol e ao Sport Lisboa e Benfica em particular, impedir que as regras da Geometria se apliquem ao universo da Liga.
Os escandalosos eventos de arbitragem no jogo do Dragão, retratam um aprofundamento da situação precedente e revelam a determinação dos novos czares em subjugar o futebol nacional.
As instituições democráticas do país, deveriam também estar atentas a este fenómeno. É sabido que a indústria do futebol movimenta receitas acima de 1100 milhões de euros e que a sua contribuição para o PIB nacional, para o emprego e para as receitas fiscais é significativa. Mas a sua quota de influência no país resulta, sobretudo, da chamada "futebolização" da sociedade. O estudo europeu "The Goosebumps Effect", analisou o impacto emocional, social e no bem-estar de experiências ao vivo. Portugal registou um dos valores mais elevados (em eventos desportivos e concertos). Não podem as instituições ignorar os enviesamentos que ocorrem num tecido social tão relevante.
A singularidade do impacto do futebol, é um estímulo forte para os novos czares. O seu apetite pela hegemonia e supremacia a qualquer preço, observa-se no sucessivo condicionamento das arbitragens, no seu discurso populista, na dinamização diária dos seus ativos nos media e na retórica fraterna com os dirigentes federativos complacentes. Quem pensava que depois de PC, com o seu Apito Dourado, chegava um sucessor mais urbano equivocou-se. Em vez de urbanidade, aconteceu uma populista "Orbán-ização” do futebol.
Na era do Re(a)pito Dourado, cabe ao Benfica reagir com determinação, adotando formas de ativismo presencial e digital e de não-cooperação que pressionem e despertem as instituições do futebol e os seus dirigentes.
Mas, igualmente, as instituições democráticas, não podem consentir que, no seio de uma democracia liberal, e à vista de todos os cidadãos, se desenvolva uma coutada de privilégios especiais. A erosão das arbitragens no campo, a degradação da supervisão do VAR, a corrosão das decisões emanadas do Conselho de Arbitragem, a falta de transparência nos mecanismos de controlo do poder no futebol, submetem a competição com ética e através do mérito, aos ditames de interesses particulares, autodenominados de "coisas normais". Desde a demissão de Duarte Gomes, que "coisas normais" para o FCP, têm vindo a público, associadas ao Estrela da Amadora.
Alguém acreditará que tudo o que de grave, sério e destrutivo se tem passado no mundo da arbitragem e nas suas conexões institucionais, foi causado pelo Estrela da Amadora? Seria como admitir na indústria automóvel que o lobby da Seat, fosse mais preponderante que o de Elon Musk.
Esperamos que os órgãos de investigação do sistema judicial atuem com celeridade.
Nuno Paiva Brandão - Sócio 50.166