O obituário competitivo da Liga e o arranque do Benfica (por Nuno Paiva Brandão)
Neste final de agosto, assisti a dois jogos de futebol: Real Madrid-Málaga e Benfica-Estoril. A mesma modalidade, dois jogos com um perfil oposto.
No desafio da La Liga, a equipa mais débil - o neoprimodivisionário e histórico Málaga - jogou no campo todo, enfrentando o gigante Real Madrid sem receio de competir. No jogo da Luz, o histórico Estoril, comportou-se segundo uma estratégia contrária à do Málaga, acantonamento hiperdefensivo, faltas sucessivas, desdenhadas por um árbitro permissivo, e toda a equipa lutando, à espera de um "milagre".
Os factos são teimosos:
- em posse de bola, 57%-43% no jogo de Madrid, 69%-31%, no desafio na Luz.
- em remates totais: 19-14, no jogo de Madrid e 23-4, no desafio na Luz.
- em pontapés de canto: 9-6 no jogo de Madrid versus 9-0, no desafio na Luz.
Outra diferença importante: o Málaga utilizou 15 (!) jogadores espanhóis de um total de 16 e o Estoril fez participar 3 (!) jogadores portugueses também em 16.
Neste curto comparativo, encontramos a essência das diferenças competitivas entre Espanha e Portugal:
- no modelo espanhol, assente na autoconfiança, as equipas competem abertamente, os jogadores aprendem e progridem, os coletivos desenvolvem-se, os espetáculos são atrativos e a indústria do futebol prospera.
- no modelo nacional, fora do top-6, as equipas focam-se em impedir a competição aberta, os jogadores têm o seu desenvolvimento coartado por aprendizagens enviesadas, os espetáculos são pobres e, obviamente, o valor intrínseco da Liga deprecia-se face ao exterior.
A grande e dura verdade é que, semanalmente, a maioria das equipas da Liga Portugal escreve o obituário competitivo do campeonato, desvalorizando-o e tornando a estimativa antes apresentada por Pedro Proença sobre o valor dos direitos de transmissão numa quimera.
É neste contexto, juntamente com os jogos preliminares da Liga Europa, que tenho apreciado o desempenho do Benfica de Marco Silva (MS). Penso que MS entregou mais do que seria expectável, ao inverter os arranques inseguros das últimas épocas. Em particular, o futebol ofensivo da equipa melhorou muito, como atestam os 30 golos marcados em 9 jogos oficiais. No plano individual, as contribuições de Pavlidis, Prestianni e Rafa estão bem acima do passado, assentes num sistema atacante mais coletivo, mais vertical e bem mais rápido e intenso do que anteriormente.
Mas a nova qualidade ofensiva tem acarretado o seu preço. Com 9 golos sofridos em 9 jogos, a vulnerabilidade defensiva está acima do que é tolerável. A média de golos sofrida pelos campeões da Liga nos últimos 6 anos foi de 0,67 golos por jogo, menos 1/3 do que o desempenho atual. Nenhuma equipa foi campeã nesse período, a sofrer 1 golo por jogo.
Haverá, porventura, retoques a fazer por estes dias no plantel, mas o problema parece ter facetas individuais e coletivas. No plano individual, tome-se o exemplo de Lenglet. Um jogador exímio tecnicamente e que já teve 2 momentos Ozempic (ou seja, sendo eficiente fora da sua área principal de intervenção), com 2 golos dignos de um grande rematador. Mas Lenglet foi essencialmente contratado para contribuir para a segurança defensiva e, nesse plano, teve já várias falhas comprometedoras. No âmbito coletivo, verificam-se também falhas de coordenação e, no geral, há uma sensação de falta de contundência física que, acredito, Palhinha e Circati poderão ajudar a suprir.
É indiscutível que MS está a mudar o Benfica, mas inevitavelmente o Benfica também mudará MS. Porque no Benfica não será suficiente praticar um futebol de qualidade, será obrigatório dominar e ser campeão. No Fulham, jogar bem, competir com qualquer equipa e ter estabilidade na Liga principal, era suficiente e a forma como Marco Silva o fez, mereceu até rasgados elogios do então treinador de referência na Premier League, Pep Guardiola. Na Luz, para ficar na história do clube, MS tem de levar o Benfica a ser campeão e a ir longe nas provas europeias, seja final de uma Liga Europa ou meias-finais na Champions. Relembremos que percursos assim, depois dos gigantes Guttmann e Riera, apenas três treinadores conseguiram proezas similares: Eriksson, Toni e Jorge Jesus.
Conjugar qualidade futebolística e grandeza de resultados é o desafio de Marco Silva, sujeito às incertezas de um futuro que, parecendo promissor, se apresenta em aberto.
Nuno Paiva Brandão
Sócio 50 166