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A síndrome do espelho: como a grandeza do Benfica perturba líderes complexados (por Nuno Paiva Brandão)

A SÍNDROME DO ESPELHO: COMO A GRANDEZA DO BENFICA PERTURBA LIDERES COMPLEXADOS

O futebol português está atualmente em 6o lugar no ranking da UEFA, sendo o principal "challenger" dos chamados "Big 5" (Inglaterra, Itália, Espanha, Alemanha e França). 

Com uma posição tão privilegiada, o interesse comum dos clubes portugueses e das instituições que enquadram o futebol, deveria residir no aumento da competitividade interna, de forma a que clubes e seleção nacional possam ascender nos rankings e obter as contrapartidas financeiras desse progresso. Assim se construiria um círculo virtuoso, uma cadeia de eventos positivos, em que cada êxito dos clubes e da seleção seria causador de êxitos subsequentes, gerando uma dinâmica autossustentável.

Infelizmente, entre as figuras de topo do futebol português, a propensão para a divisão revelada pelo Presidente do FCP, André Villas-Boas (AVB), e o seu prosseguimento de uma agenda condicionada e interesseira, vão em sentido oposto.

A sombra alargada do seu carismático antecessor condiciona a atuação do atual Presidente. Em matéria de comunicação, AVB ficou preso ao ciclo temporal anterior, revivendo e repetindo os padrões anteriores. Sem a destreza de Pinto da Costa (PdC), e “fora de jogo” em relação à oportunidade do momento, AVB evidenciou as suas debilidades, por comparação com PdC, e prestou um mau serviço ao futebol português que necessita de estabilidade.

Efetivamente, após o clássico do dia 20, AVB ressuscitou a estafada narrativa da cisão norte-sul, concebida por PdC, através da ridícula invocação de uma suposta Santa Aliança SLB-SCP, a alegada “entente da Segunda Circular”. Entusiasmado com a sua invenção, veio posteriormente elaborar sobre um alegórico “manto marrom, essa mistura de verde e vermelho” e destacar a arbitragem “isenta e séria” de Miguel Nogueira.

Aí está a agenda típica do populismo de PdC, destinada a inflamar o "nós" contra "eles" e a gerar um excitado movimento de apoio. Mas os tempos já não são os mesmos e a capacidade de comunicação de AVB (versus PdC) ainda menos o é.

A gritaria nos media, contra tudo e contra todos, é o disfarce de quem privilegia o ruído mediático ao silêncio acusador das imagens de televisão. O barulho afeta a estabilidade do futebol, mas cumpre a sua verdadeira missão: desviar a atenção das decisões arbitrais que vão embalando o FCP na Liga.

AVB, nas suas desabridas declarações contra o Benfica, mostra que visivelmente tem dificuldade em conviver com a grandeza do maior clube português. Mas talvez não devamos tomar essa agressividade muito a peito. O seu comportamento atual não apresenta novidade, é apenas mais um capítulo de uma biografia escrita contra o brilho alheio. Passou-se assim quando foi afastado da equipa técnica de Mourinho, foi assim no Chelsea, quando optou por atacar as estrelas do plantel e terminou despedido e a ver o seu ex-adjunto liderar a equipa à vitória na Champions.

Ocorreu assim, igualmente, na relação com o seu antecessor no FCP. Os ataques ao Benfica e ao correto e competente Marco Silva, com um CV muito superior a AVB na Liga inglesa, fazem parte desse longo rasto de incompatibilidade com a grandeza.

A ficção da “Santa Aliança” e do “manto marrom”, não é política desportiva, é uma autoterapia pública.

O futebol português necessita de unidade e de estabilidade numa defesa coletiva das suas questões essenciais. E, para isso, são necessárias lideranças com grandeza conforme aos clubes que representam e, até, com melhores maneiras. Urge deslocar o bafiento ruído regionalista e adotar uma visão moderna de um futebol nacional unido e verdadeiramente competitivo, sobretudo promovendo uma mudança geracional de mentalidades que favoreça essa unidade.

Perante este cenário, o SLB deveria liderar uma visão alternativa positiva e de unidade para o futebol português. Substituir a intimidação pela ambição, o falso pelo verdadeiro, o negativo pelo positivo. É necessário energizar um outro caminho, mobilizando os demais clubes para a defesa do futebol nacional, levando as instituições que os representam a defender os interesses coletivos e a assegurar uma competição não condicionada e ética nos terrenos de jogo. Uma competição transparente e sem distorções, sem intervenientes com conexões privilegiadas, em que o mérito seja o único atributo causador das vitórias.

No atual contexto de populismo inflamado, se o Benfica não agir com determinação nesta via alternativa, pode a atual geração dirigente deixar uma hipoteca histórica às gerações futuras.

Nuno Paiva Brandão
Sócio 50.166