COM MARCO SILVA VOLTAMOS A JOGAR À BENFICA!
Nos grandes duelos entre equipas de topo, os treinadores assumem cada vez mais um papel central. No início da década passada, na Liga espanhola, o embate Madrid-Barça definia-se tanto pelo repto CR7-Messi, como pelo enfrentamento conceptual e de personalidades entre Mourinho e Guardiola. Atualmente, no futebol nacional, a rivalidade Benfica-FC Porto (FCP), evidencia também um contraste entre a forma como os seus técnicos fazem a leitura dos jogos e avaliam as performances das suas equipas.
A esse respeito, o início da Liga dos Campeões,
trouxe-nos um instrutivo FCP x M. City. O resultado de 0-2 não pareceu anómalo
face às forças em presença e refletiu as estatísticas chave do jogo:
Total de Remates: 5 20
Dos quais:
Enquadrados: 0
10
Posse de bola: 36% 64%
Golos Esperados: 0,3 2,3
Como corolário natural deste desnível, o guarda-redes do FCP foi considerado o elemento mais valioso da sua equipa.
Neste contexto, foi desconcertante ouvir
o treinador do FCP qualificar a exibição da sua equipa como tendo sido "
fantástica" e "top”. Autoelogiou o seu plano de jogo e concluiu com a
pergunta retórica: "quantas equipas enfrentarão o City como nós, FCP, o
fizemos"?
Esta autoindulgência, que já tinha
assomado na época anterior quando fez uma avaliação inflacionada da modesta
performance da sua equipa na Liga Europa, aparece de novo agora, introduzindo
um curioso conceito de "derrota moral". A aparentada conceção de
"vitória moral" (evocada quando uma derrota é associada a uma alegada
superioridade no terreno de jogo), é largamente prevalente no futebol.
Farioli, será porventura o único a introduzir a noção de que tendo sido o
adversário mais forte e as estatísticas do jogo revelarem um
"amasso", a sua equipa terá sido, afinal, “fantástica". Parece
não se ter apercebido que a glorificação da "derrota moral", é um
apoucamento do clube que representa.
Por contraste, de toda a profunda transformação
introduzida por Marco Silva (MS) no futebol do Benfica, nomeadamente a
autoexigência demonstrada, parece-me ser o atributo global mais destacável no
seu trabalho. Desligado de qualquer euforia, tem apresentado uma leitura
pragmática dos jogos e tem-se concentrado em destacar o muito que a equipa tem
ainda que evoluir.
Com MS a reformar o futebol da equipa, o declínio exibicional dos últimos quatro anos cessou, o que não significa ainda o começo de um domínio interno que carecerá de demonstração no futuro.
As peças do novo puzzle arquitetado por
MS começam a encaixar-se: com Palhinha, o Benfica passou a ter a chave do meio-campo.
Não apenas pelo lado instrumental do seu jogo, rapidamente revelado, mas também
pelo símbolo que é da importância dos grandes competidores, curtidos em dezenas
de jogos na Liga mais exigente do mundo. No ataque, com a jovem dupla
Prestianni-Schjelderup, a equipa recuperou uma magia ofensiva, alinhada com a
história do clube. Adicionalmente, todos os jogadores parecem ter uma atitude e
energia reforçadas, dinamizados por um sistema de jogo coletivo, intenso e
vibrante. Finalmente, o Benfica volta a jogar à Benfica.
Claramente, neste momento da Liga, é o
Benfica que mostra as melhores cartas e que marca o tom da competição. Mas nem
sempre os melhores processos geram o resultado final desejado. Tudo isto vai
ainda no início.
Entretanto e com todo o apreço pelas
significativas melhorias introduzidas, parece-me haver ainda 3 questões por
responder ( 2 para MS e 1 para a Direção). As duas primeiras, se forem
pertinentes, só poderão ter resposta no mercado de inverno. A terceira é uma
chamada para a ação imediata.
Eis as três questões:
1ª - Guarda-Redes: estão ao
nível das ambições do clube? No contexto atual, lamenta-se que Svilar tenha
saído em 2022 a custo zero. Em 2022/23 começou a ser utilizado como titular na
Roma com Mourinho e nas épocas de 2024/25 e 2025/26 foi considerado o
melhor guarda-redes da Liga italiana!
2ª - Defesa: com a saída de Dedic
(inevitável pela oferta recebida) e com o histórico de lesões de Bah, é
possível enfrentar todas as competições, apenas com Bah e o talentoso, mas
muito jovem, Banjaqui, na lateral direita? O jogo com o Gil Vicente reforçou as
dúvidas. E, no centro da defesa com o histórico de lesões de Tomás Araújo, é
possível ter apenas 3 centrais de raíz no plantel? Haverá algum substituto
potencial credível na formação?
3ª - Contexto institucional: sigamos as aparentes
frivolidades do que se passa no terreno de jogo e que, este ano, pendem sempre
em benefício do FCP:
· 01/08: Supertaça com o Torriense: foi perdoado um
penalti ao FCP por falta de Hwang.
· 23/08: o FCP beneficiou de um penalti polémico na
vitória sobre o Arouca.
· 25/08: o Presidente do FCP (AVB) criticou o Benfica
por tratar de forma "cruel e desrespeitosa" Pedro Proença(PP), (não
explicitou se o desrespeito foi efetuado ao cidadão PP, ou se o foi ao
dirigente institucional PP, lembrando o ridículo desdobramento feito por PP a
seu respeito).
· 29/08: William Gomes, segundo alguns analistas,
cometeu falta sobre o defesa do Académico de Viseu, Hugo Costa, antes do
primeiro golo do FCP.
·
04/09:
no jogo contra o Moreirense, William Gomes não é punido por uma alegada conduta
violenta, que vários comentadores qualificaram como sendo uma agressão.
Vai o Benfica atuar proativamente ou passivamente?
Espero que a Direção do Benfica una os pontos e verifique até onde esta linha contínua nos irá conduzir. Há muitas entidades com demasiado a perder, até com fortes receios desta mudança empreendida pelo Benfica de MS. O Benfica tem a força social e institucional para impedir que poderes oficiais venham a enviesar a competição. Mas há que atuar proactivamente para que, mais tarde, não o venhamos a lamentar.
Após um longo e demasiado sombrio
período de declínio, o novo conceito de jogo implementado por MS é um
extraordinário fator de estímulo e de unidade para os benfiquistas. Haverá as
habituais vozes que procurarão criar brechas nessa unidade. Mas no clube de
Eusébio, se há coisa que sabemos, é reconhecer a diferença quando a vemos.
Nuno Paiva Brandão - Sócio 50.166