À PROCURA DA FÓRMULA VENCEDORA
Há cerca de 65 anos, o Benfica irrompeu na Europa como uma força revolucionária, derrotando na final da então Taça dos Campeões Europeus o Real Madrid de Di Stéfano e Puskas. Hoje, por uma curiosa coincidência, os dois gigantes ibéricos, separados por 630 km de Península, partilham um objetivo comum: voltar a dominar as respetivas competições nacionais. Para isso, necessitam de superar o rival incumbente, respetivamente o FCP e o FC Barcelona. A segunda interceção neste tópico, advém do facto do RM ter escolhido Mourinho para liderar esse desafio, justamente o treinador que a passividade da Direção do Benfica deixou à mercê do mercado, ao não ter respondido em tempo oportuno à sua intenção de renovação. O futuro evidenciará quem teve razão: se Florentino Pérez por ter agido, se Rui Costa por ter olhado para o lado.
Contudo, a sobreposição das situações
dos dois clubes, termina nestes elementos de contexto. Para poder voltar a
liderar, o RM compreendeu a urgência de corrigir as suas capacidades defensivas
e contratou imediatamente três defesas: Dumfries (20M), Cucurella (55M) e
Konaté (a custo zero). E renovou já contrato com Rüdiger. Por contraste, a
muito necessitada defesa do Benfica, viu sair Otamendi, substituído por Lenglet,
e irá perder António Silva, que não aceita renovar o seu contrato. A mesma
problemática e duas respostas opostas: proatividade e rapidez no RM,
passividade e lentidão no Benfica.
A base da performance de uma equipa de
alta competição é a edificação das suas capacidades, através dos talentos da
formação e dos recrutamentos externos. Ora, neste âmbito, nos últimos anos, o
Benfica perdeu claramente para os rivais e, nos mercados de inverno, ficou
sempre aquém do necessário para corrigir os erros anteriores. Não se pode pedir
a Marco Silva nem a nenhum treinador que molde um plantel ganhador se a
composição do mesmo continuar a ser desequilibrada e abaixo dos rivais.
O sucesso em alta competição, inclui
também o motor motivacional. No Benfica líder europeu dos anos 60, metade da
equipa eram jogadores brilhantes, de topo mundial, e metade eram bons
jogadores, dotados de uma ambição, intensidade e resiliência que lhes permitia
superar as dificuldades técnicas. O chamado "jogar à Benfica”, tem origem
nesse fator emocional que impulsionava a equipa para a vitória e dava suporte
aos génios da equipa (felizmente alguns ainda estão vivos e são a prova
definitiva dos méritos desses tempos). Por infelicidade, mais recentemente,
também nesta matéria, o Benfica não tem sido uma equipa inspiradora.
É certo que existe uma responsabilidade
individual dos atletas e que faz parte da missão do treinador modelar a equipa
e fazê-la atuar de forma aguerrida e intensa (veja-se o exemplo de Cabo Verde
no Mundial). Mas no final, a cultura de uma organização, é marcada
decisivamente pela Direção do clube.
Todos, jogadores, técnicos, sócios e
adeptos, precisam de observar que há uma liderança forte e atuante, proactiva e
não passiva, ambiciosa e não conformista, que desafia as injustiças
institucionais e não se resigna apenas a emitir votos de protesto. Todos,
necessitam de sentir que há um projeto pujante, um rumo ambicioso e um sentido
de urgência na execução dos processos operacionais.
O jornal a Marca titulava: "O Real
Madrid aperta mais o Barça com Negreira", explicitando a ação firme do
clube para levar até ao fim este caso dito de "corrupção sistémica"
na arbitragem espanhola. O jornal As lança diariamente notícias e vídeos
de tudo o que Mou faz, das mudanças que está a introduzir. A Comunicação do
clube revela a sócios e adeptos todos os detalhes que criam entusiasmo pelo
novo projeto.
O Real Madrid está à procura da fórmula
vencedora e a comunicar profusamente à volta dela. Por contraste, o Benfica
parece não ter sentido de urgência e aparenta não ser capaz de comunicar de
forma entusiasmante sobre o novo projeto.
O infeliz exemplo atual é evidenciado
pelas declarações prestadas por Rui Costa ontem: “o plantel do Benfica não vai
ficar assim”. Apesar de se saber, desde há dois meses, que o primeiro confronto
europeu se jogaria a 23 de julho, o Benfica terá o seu setor defensivo
depauperado e “remendado” com um jogador que deseja sair do clube. Pelos
vistos, a dinâmica de entradas e saídas irá continuar, independentemente das
exigências ditadas pelo calendário desportivo.
Este modelo de atuação, sem planeamento
eficaz, é mais um corolário fatal do declínio do futebol do Benfica nos últimos
anos, uma sombra do ainda recente domínio alcançado na segunda década deste
século.
Mas este ciclo desluzido terá de chegar ao fim. Esta
época, se Rui Costa não for capaz de pagar o preço da vitória, terá de pagar o
preço da derrota.
Nuno Paiva Brandão - Sócio nº 50.166