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O efeito "gargalo" na Seleção (por Nuno Paiva Brandão)

O EFEITO “GARGALO” NA SELEÇÃO

Uma Seleção com um plantel com 4 bicampeões europeus de clubes pelo PSG, dois jogadores titularíssimos no City e com o melhor jogador do ano na melhor Liga do Mundo, a Premier League, entre outros trunfos individuais, não deveria estar ainda em competição?

Por inépcia do seu Selecionador, Portugal foi vítima da "teoria do elo mais fraco". Este conceito dita que um sistema empresarial é como uma corrente: o seu poderio total é determinado pelo seu elo mais fraco, o “gargalo” que condiciona o sucesso. Tal como em Produção, numa linha de montagem, em que o ritmo é estabelecido pela máquina ou segmento mais lento, numa equipa de alto desempenho, o poder coletivo é travado pelo elemento menos capaz ou mais desalinhado com o sistema (é fácil agora visualizar o que foram os contra-ataques da Seleção a duas velocidades).

O elevado valor médio dos jogadores espanhóis, aferido pelos valores de mercado ou pelos rankings dos seus clubes de origem, é semelhante ao alto valor médio dos jogadores portugueses. Mas, no conjunto do Mundial, o desempenho da Espanha tem superado a soma dos seus talentos individuais. Esta sinergia positiva advém da sua homogeneidade, excelente organização e ambição coletiva. Ao invés, a performance de Portugal como equipa, foi consistentemente inferior à soma do potencial individual dos seus jogadores. Esta sinergia negativa, resultou do efeito “gargalo” acima apontado e de uma visível falta de ambição de Grupo.

A imprensa espanhola, através da Marca, perguntava, em referência a Vitinha e João Neves: "Esqueceram-se de jogar futebol?" O futebol é um jogo coletivo, um sistema, sujeito ao efeito “gargalo” do elo mais fraco de uma equipa. Quem alimentam Vitinha e Neves no PSG? Dembelé, Doué, Barcola e Kvaratskhelia, quatro vetores ofensivos no seu “prime”, que dão continuidade e concretizam o labor talentoso de Vitinha e Neves, a montante. E na Seleção alinhada por Martinez? Vítimas do efeito “gargalo”, duma ofensiva estática e afunilada e das obsessivas instruções para controlar a posse de bola, acabavam por circular a bola em U, numa performance aborrecida e ineficiente.

Na alta competição atual, é agora frequente que as grandes estrelas do passado alonguem os seus percursos, apesar da natural redução da sua performance. Nadal (já retirado) e Djokovic no ténis, Alonso na Fórmula 1, Lebron James e Durant na NBA e CR7 e Messi no futebol, são alguns exemplos. Nada a apontar à sua livre escolha. 

Mas num desporto coletivo, cabia ao líder da equipa - no nosso caso, a Roberto Martinez - decidir, por critérios meritocráticos, em função do interesse da equipa e do país, e não o fez. Por contraste, de novo com a Espanha, na Eurocopa 2021, Luis Enrique decidiu não convocar o até então "obrigatório" capitão Sergio Ramos (1 ano mais novo que CR7). E apesar do ruído então causado, a renovada seleção espanhola prosseguiu um rumo vitorioso.

Martinez, uma pessoa educada, fluente e poliglota, agiu sempre mais como um Relações Públicas (RP) do que como um Selecionador com capacidade de liderança e ambição. Submeteu os critérios meritocráticos à hierarquia dos tempos passados, subutilizou ou não utilizou quem queria e podia, para insistir em quem queria, mas não podia. Provavelmente ficará para a história como o RP mais bem pago de sempre (cerca de 60-70x mais que a função).

A imagem gráfica do desempenho da Seleção neste Mundial é a de uma garrafa tombada. Cheia de talento, tornado improdutivo pelo afunilamento do seu “gargalo”.

Esperemos que com JJ voltem tempos normais, de coragem e ambição. Com a coorganização do Mundial 2030, a responsabilidade de Portugal aumenta. E ou JJ marcará a história ou a história o marcará a ele.

Nuno Paiva Brandão - Sócio nº 50.166