Entre a realidade (Estoril) e o sonho (Benfica District)
1. Comecemos pelas boas notícias, ou seja, uma boa vitória contra um belíssimo Estoril que já tinha feito a vida negra a FC Porto e Sporting e que nos obrigou a suar as estopinhas. Praticamente na jogada inicial Trubin safou um golo certo e escassos minutos depois, novamente com mestria e destemor, safou mais um golo. Em suma, nos primeiros minutos o Estoril disse ao que vinha e logo se percebeu que só com muito suor e inspiração o Benfica ganharia o jogo.
A 1a parte foi frouxa, com um daqueles penaltis que irritam quem sofre, porque lá estamos a discutir volumetria e nunca a mão na bola. Seja como for, se vale contra nós, também tem de valer a nosso favor. No final da 1a parte, Pavlidis mete um daqueles golos que vale o bilhete de jogo, mas logo a seguir lá tivemos de oferecer mais um golo, desta vez por displicência de Sudakov.
A 2a parte foi o exemplo de um jogo “chato”. Mou bem pôde dizer que o Benfica controlou o jogo, mas para o adepto comum, a incapacidade de fazer transições tal o número de perdas de bola na construção, deixou as bancadas vermelhas da Luz à beira de um ataque de nervos, pela memória de recentes empates. Até que Mou animou as bancadas ao colocar Sidny e este logo correspondeu ao entusiasmo com que foi recebido, oferecendo o hat-trick a Pavlidis.
Assim acabou o jogo, sensaborão, mas a valer 3 pontos, afinal o essencial para alimentar a ilusão do campeonato que sofre agora mais um interregno, desta vez pela disputa da Taça da Liga. Com as lesões que esta semana surgiram a juntar Enzo e António a Bah, Lukebakio e Bruma, com Aursnes preso por arames e com o FC Porto logo a 14 janeiro onde se joga muito mais do que uma eliminatória da Taça de Portugal, esta Taça da Liga poderia ser um bom campo de experiências e dar hipóteses a jogadores que reclamam desesperadamente por minutos, como Scheldrup ou Ivanovic, além de Sidny.
Para já, estamos novamente com o Sporting à distância de 3 pontos, ou seja, na pior das hipóteses, o alcançar do 2 lugar só depende de nós. Sobre o FC Porto, o acreditar de que pode perder 7 pontos (os restantes 3 discutimos na Luz), tem que nos fazer correr, no campo e nas aquisições de janeiro, bem estreadas com Sidny, mas ainda falta um qualquer André Luís (que até pode ser ele) e claramente um 6 com esta lesão inquietante de Enzo.
Por termos de acreditar que o FC Porto pode perder 7 pontos, a eliminatória da Taça, imediatamente a seguir à final da Taça da Liga e onde iremos defrontar uma equipa bem mais fresca, tem uma carga de importância emocional que não podemos olvidar. Mou tem aqui uma série de decisões a tomar, neste terrível janeiro onde já não nos basta a dificuldade dos próprios jogos, mas ainda temos de nos confrontar com lesões inopinadas a cercear as opções à disposição de Mou. Vamos lá então ver como Mou se desembrulha, sabendo que qualquer equipa do Benfica tem sempre de entrar em campo para ganhar.
2. A Assembleia Geral do Benfica aprovou, tal como era mais do que esperado, o Projeto “Benfica District”, mas com escassos 60/40%. Numa fórmula inovadora de funcionamento, muito questionável face aos Estatutos que entendo não preverem este modo de reunião abrangente, com um misto de Sócios presentes e outros por “streaming”, podendo todos votar, era para mim evidente que o Projeto ia passar.
Dirão uns que é a fórmula ideal para contornar a realidade das Assembleias serem manobráveis por grupos a comparecer em força, dirão outros que assim é que se representa verdadeiramente a vontade dos Sócios, sem nunca ninguém ousar falar na alternativa de introduzir assembleias representativas, face à realidade crescente do número de Sócios. Seja qual for a perspectiva, o importante é saber se estas deliberações são válidas ou anuláveis por irregularidades estatuárias no funcionamento da Assembleia.
Hoje e para o futuro, porque no futuro certamente que se irão aprovar coisas concretas como Contas e Orçamentos ou até modelos financeiros para este Projeto e não meros PowerPoint, em que o seu consubstanciar está dependente de tantas variáveis e tantas incertezas como a existência de parceiros com propostas concretas a permitir viabilizar hotéis, um centro comercial ou um pavilhão multiusos ou alternativas de Project Finance.
Mas lá se aprovou tudo num pacote muito bem embrulhado, como o incremento da capacidade do Estádio, uma necessidade para ontem, misturado habilidosamente com o Benfica District, como se uma coisa tivesse a ver com a outra. Zero de zero, mas pronto, lá conseguiram continuar com o sonho, tudo isto sem eu ter percepcionado qualquer papelinho do Conselho Fiscal, fosse ele a dizer “sim ou sopas”, como seria do mais elementar bom-senso pelas funções de fiscalização que lhe estão estatutariamente consignadas. Dirão que nada havia para aprovar porque nada de palpável foi apresentado, mas se esta argumentação é válida, mais me ajudam a dizer que foi uma perda de tempo a Assembleia de ontem.
Uma nota final, esta muito a sério. Começou a desenhar-se nesta Assembleia, para o bem e para o mal, o “Benfica District”. Então, senhores do Governance que existem no Clube, considerem muito rapidamente a constituição de um Comité de Análise de Risco, de acordo com todas as boas práticas.
A existência de um Comité desta natureza é essencial em qualquer organização, por maioria de razão, até porque queremos que as apresentações futuras de qualquer dos vetores de negócio ligado a este “Benfica District” seja acompanhado de uma análise de riscos (estratégico, financeiro ou outros), para além de pareceres do Conselho Fiscal, certamente exigíveis pelos Estatutos.
Manuel Boto
Sócio 2794