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Os novos espelhos de feira (por Nuno Paiva Brandão)

Os novos espelhos de feira

Os canais de subscrição de índole generalista, têm atribuído um número insólito de horas ao futebol. Programas diários longos como “Mercado”, “Liga d'Ouro”, “Record na Hora”, “Mercado Aberto”, “Mais Transferências” e “Em Jogo”, absorvem horas a fio de transmissão televisiva.

Têm um foco muito particular numa classificação. Mas não é a que reclamam comentar, a Liga Portuguesa, mas sim uma outra classificação oculta, o ranking das quotas de audiência. Assim, num intervalo estreito de percentagem de audiência, encontram-se a líder CMTV, a Sic Noticias, a CNN Portugal e o Now, acotovelando-se entre eles, numa luta de todos contra todos, em situação de tendencial equilíbrio.

Num mercado tão competitivo, o tema do futebol, com a sua vastíssima audiência - um Moreirense-Benfica tem uma audiência 3,6 vezes maior que o debate com todos os candidatos presidenciais - e o seu elevado impacto emocional, é um território de combate apetecível para estas entidades.

Mas, ao contrário de um passado em que o conteúdo fluía dos clubes e dos peritos para os media, agora o sentido de circulação do conteúdo mudou. Atualmente, é o comentador/influenciador que cria o conteúdo e o direciona contra o clube e/ou contra o perito. Anteriormente, entrevistas a treinadores, Presidentes ou a jogadores-chave do Benfica, tudo personalidades que mereciam respeito institucional, eram um conteúdo essencial na comunicação dos canais. No presente, estas figuras de topo são o alvo primordial dos influenciadores, através de conteúdos que preferencialmente incorporem o peso do imprevisto, do invulgar ou do belicismo. A titulo de exemplo recente, o facto de Richard Rios ter sido capitão de equipa, durante 2 minutos, após a expulsão (em mais um acto cirúrgico de João Pinheiro) de Otamendi, originou horas de pseudo-debate sobre uma pretensa falta de regras de decisão da parte da equipa técnica do Benfica ou sobre os critérios do clube para o acesso à função de capitão. 

Na batalha sangrenta pelas audiências, o custo do ataque é inferior ao da defesa. Ao contrário do futebol, em que os peritos asseguram que é a defesa que ganha campeonatos, na disputa de um ponto % de quota de audiência, atacar é a opção comercialmente mais eficiente. 

Contudo, num cenário em que os vários canais adotam formatos e tácticas semelhantes, a ofensiva é uma condição necessária, mas não suficiente. É indispensável levar todos os ataques às suas consequências extremas. 

Na véspera do clássico no Dragão, a CMTV apressou-se a organizar um televoto sobre o despedimento de Mourinho, em caso de derrota do Benfica no jogo da Taça com o FCP! Curiosamente, no mesmo dia, uma figura do futebol, o internacional brasileiro Lucas Moura, recordava, em entrevista, as qualidades técnicas e humanas de Mou. Dias antes, o As recordava uma entrevista de Karanka, ex-adjunto de Mourinho no Real Madrid, em que dizia, entre muitos elogios, "Mourinho acabou com a supremacia do Barcelona".

Mas a racionalidade não preocupa estes novos influenciadores. Para assaltar as audiências, é necessário aquecer as temáticas, procurar fraturar as opiniões, promover visões extremas, fomentar a divisão e a polarização. A mecânica dos demagogos é amplamente conhecida: há que escaldar o ambiente para alavancar a audiência.

Ora, no território utilizado - o futebol - o protagonista central é o Benfica, pela sua grandeza única no país. Daí que, nesta corrida irracional, o Benfica e as suas maiores figuras atuais, estejam no epicentro destas estratégias destrutivas. Diariamente, Rui Costa, Mourinho e Otamendi, são o alvo de futilidades pronunciadas como acusações sérias ou relevantes. A função destes programas pseudo desportivos, é a mesma dos velhos espelhos da feira popular: deformar a realidade, torná-la irreconhecível para obter um efeito emocional e, por essa via, conquistar audiências.

Quem pensava que estes formatos eram um modismo enganou-se.

Com os seus soldadinhos diariamente alinhados nos estúdios, estes novos exércitos da pós-verdade desportiva não são um evento efémero, mas antes configuram uma época. Fazem parte do novo ecossistema do futebol e, com a sua pressão quotidiana, podem manipular os adeptos e influenciar os protagonistas do futebol.

Nuno Paiva Brandão - Sócio 50.166