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Centímetro dourado (por Nuno Paiva Brandão)

CENTÍMETRO DOURADO

No sábado dia 10 de outubro, disputou-se no Funchal um renhido Marítimo-FC Porto que esteve empatado a um golo até perto do final do jogo. Aos 84 minutos, o portista Pietuszewski marcou um golo, mas o árbitro assistente assinalou fora-de-jogo ao avançado do FC Porto, levando à anulação do mesmo.

Posteriormente, o VAR veio reverter a decisão tomada no campo pelo assistente, concedendo o golo ao FC Porto, alegando que o referido jogador portista estaria em jogo por 1cm! Ora, como cientistas vieram demonstrar, a própria física das câmaras de 50/60 “frames” por segundo, não permite fazer esse apuramento com certeza científica, dada a margem de erro na determinação exata do momento do passe ser bem superior a 1cm (cerca de 5 cm).

Esta era do “centímetro dourado” parece um “remake” dos velhos tempos, mas com o “pixel” a substituir a “fruta”. E é um “remake” porque, na sala do VAR que teoricamente se apresenta como um palco de precisão cirúrgica, a intervenção humana de sempre continua a ter lugar. Longe da vista do público, os velhos intervenientes repetem as tradicionais escolhas arbitrárias, neste caso selecionando onde focalizar o pixel, se no pé do avançado, ou se no ombro do defesa.

Porque a memória é relevante, relembremos que, em 2021, anularam um golo ao Benfica (por Darwin Nuñez), no Estádio do Dragão, por 4cm (sem surpresa, o VAR era o indescritível Luís Godinho). Em 2022, a história repetiu-se, desta vez no Estádio da Luz. O golo anulado a Darwin, uma vez mais frente ao FC Porto, foi invalidado por 2cm! Agora, a falsa neutralidade da tecnologia moderna (VAR), elevou ainda mais a parada: tomou-se uma decisão por 1 cm! Ou seja, decisões por 4cm-2cm-1cm, por coincidência sempre com o mesmo beneficiário, o FC Porto.

O VAR foi apresentado aos adeptos, como um instrumento da “verdade” desportiva. Mas quando a margem de decisão é inferior à margem de erro da tecnologia, a opção de validar ou invalidar um lance é uma singela escolha humana. Apenas deixou de ser feita à vista de todos, sendo agora efetuada, pelos agentes habituais, sob o escudo protetor da parafernália digital. O famigerado Apito Dourado destruiu a confiança na idoneidade do futebol português. Esta época, desde o evidente penalti cometido pelo FC Porto na Supertaça frente ao Torriense que passou em claro, passando pela escandalosa arbitragem do Clássico até ao agora “centímetro dourado” na Madeira, qualquer adepto não-portista, deixou de acreditar na verdade desportiva das competições nacionais.

No futebol português, alterou-se a tecnologia, modernizou-se a linguagem, mas manteve-se a incapacidade em aceitar que os resultados sejam apenas a consequência do talento de treinadores e jogadores.

O “centímetro dourado”, simboliza essa área cinzenta, em que a tecnologia frequentemente não está presente para servir a verdade desportiva, mas para ser um instrumento da ousadia de uma estrutura que maneja o futebol.

O Apito Dourado fez o país duvidar da integridade de certos árbitros; o “centímetro dourado” faz o país questionar a idoneidade do que, sem escrutínio, se passa por detrás dos ecrãs.

Nuno Paiva Brandão - Sócio nº 50.166