O RETRATO DE CR7: QUEM MANDA NA SELEÇÃO -, O REI, O MESTRE OU O PRESIDENTE?
Os que leram
Oscar Wilde, recordarão a obra magistral, " O Retrato de Dorian
Gray", na qual um homem faz um pacto para ser jovem para sempre, enquanto
num sótão se esconde o quadro com o seu retrato que vai envelhecendo,
assinalando a realidade da passagem do tempo.
O mito da eterna
juventude de Cristiano Ronaldo (CR), começou por ter uma base real. Sustentado
no seu atleticismo, no seu trabalho de ginásio, numa dieta rigorosa e
recorrendo a meios invulgares (crioterapia), CR ultrapassou os 30 anos em
excelentes condições. Talvez o momento em que esse mito começou a apresentar
fissuras, tivesse sido em julho de 2018, aos 33 anos. Após 9 épocas esplêndidas
no Real Madrid, o maior clube de futebol do mundo recusou-se a realizar um
contrato prolongado, alegando que, com essa idade, os contratos seriam obrigatoriamente
anuais. De forma criteriosa, o Real não fez qualquer exceção a CR.
Nos anos mais
recentes, o mito da eterna juventude deixou de poder ser sustentado pelo
profissionalismo de CR. Simplesmente, não há como bloquear a passagem do tempo.
Mas o mito manteve-se, agora suportado pelo poder federativo, uma espécie de
eterna juventude por decreto. Com Roberto Martinez, o decreto FPF foi aplicado
com todo o rigor: a titularidade de CR era um dogma inquestionável, sem relação
com o rendimento no terreno de jogo.
Quando, após um
frustrante Mundial 2026 e, contando já CR 41 anos, se esperava um desenlace
natural - aliás como se passou com o seu arqui-rival Leo Messi, entrou em cena
o Presidente da Federação.
Conhecedor da
vulnerabilidade de CR aos elogios e, sobretudo, daquilo que o jogador poderia
ainda representar para os cofres da Federação, Proença assinou com ele um novo
pacto de imortalidade.
Mas sabendo que
não é fácil esconder dos adeptos e dos media as "rugas" que o tempo
vai evidenciando em campo e convictos de que conseguiriam continuar a
orientá-los a olhar apenas para a "moldura" - " CR é muito
importante no balneário", assegurava o submisso Martinez - Proença decidiu
contratar Jorge Jesus (JJ). Supostamente, o Mestre JJ deveria ser capaz de
controlar o ego do astro e Proença teria o melhor de dois mundos: receitas a
entrar e a Seleção a funcionar. Rapidamente, esta ilusão de Proença quebrou-se.
Três jogos de elevada competitividade, com vitórias convincentes, boas
exibições e sem CR em campo, destrancaram o sótão onde se escondia o retrato
envelhecido. Ficou à vista de todos, qual é, hoje, a melhor Seleção para
Portugal.
Com a contratação
de JJ, determinado a ter um fecho de ouro na sua carreira com êxitos na Seleção
e sem ser um comunicador subtil, Proença criou o monstro bicéfalo que agora
polariza o país: juntou o jogador que reclama ser eterno, com o treinador
determinado que se foca essencialmente no rendimento. E Proença, que
inicialmente lucrou com a ilusão criada, está agora a receber o efeito “boomerang”
da sua manobra.
No Real Madrid de
2018, tudo foi resolvido atempadamente, com profissionalismo, transparência e
sem ciladas. Florentino Pérez, apesar de 9 épocas desportivas extraordinárias e
das receitas colossais trazidas por CR7, recusou-se a fazer um contrato longo,
quando o jogador tinha ainda 33 anos.
Oito anos depois, o conflito que agora polariza o país foi terrivelmente mal gerido pela FPF. Ao convencer CR a adiar o final da carreira na Seleção, Proença utilizou o ego natural de um dos melhores jogadores da história para prolongar a anuidade do “seguro financeiro” da FPF. Mas todas as apólices pagam encargos de franquia e estes são liquidados no terreno de jogo. Adicionalmente, JJ não aceitou a letra pequena da apólice subscrita por Proença. Com ele, a verdade da melhor Seleção foi exposta nestas duas semanas, perante milhões de pessoas.
Não será este o
momento de todos terem a coragem de aceitar que o tempo, como sempre, venceu?
Nuno Paiva
Brandão - Sócio nº 50.166