“Liga-FPF, S.A.”: pontos, benesses e ilusões
No passado dia 14
de outubro, o FCP enfrentou o Bétis de Sevilha para a segunda jornada da Liga
dos Campeões. A surpreendente derrota do FCP, entre outros efeitos, abalou o
"portismo" de alguns comentadores da CMTV/Now.
Do excitado
corrupio de opiniões subsequentes, veio a emergir o esquizofrénico conceito da
existência de dois FCP, o das competições internas, intenso e dominador, e o
das provas europeias, brando e subordinado. Ao contrário do gigantesco City
(agora condenado por "doping" financeiro), o Bétis, como
posteriormente o PSV, são equipas teoricamente ao alcance dos
"grandes" em Portugal.
Mas, o que
aconteceu de diferente em La Cartuja, foi uma arbitragem rigorosa e isenta, que
assinalou um penalti contra o FCP (via VAR) e anulou um golo portista por mão
prévia de outro jogador (igualmente com recurso ao VAR). Pela experiência
competitiva em Portugal nesta época, desde a Supertaça até agora, estes dois
lances, muito provavelmente, não teriam tido o mesmo desfecho numa arbitragem
interna. E lá teríamos o "poliglota" Farioli a gabar-se de mais 3
pontos “protegidos” e de uma liderança assente num pleno de vitórias.
Mas quando não há
regulação indevida, o desenlace é outro e as vantagens (e o protecionismo
arbitral local) transformam-se em incapacidade e vulnerabilidade na Europa. A
lição de Sevilha, é que o protecionismo em Portugal gera atrofia na Europa.
O pagamento da
fatura da complacência interna, nas noites europeias, observa-se também a nível
individual. Um amigo com sentido de humor, enviou-me uma foto de uma entrada
violenta de Morten Hjulmand, num jogo de Champions, ao serviço do Atlético de
Madrid, com uma nota onde dizia: "ele acha que ainda está no Sporting!".
Efetivamente, a indulgência com que os árbitros em Portugal tratavam o
ex-capitão do Sporting, "deseducou-o", colocando-o na órbita do rigor
arbitral europeu.
Se o futebol
português, continuar a ser um ecossistema com intervenientes protegidos, estes,
clubes e jogadores, tenderão a pagar a fatura da inadaptação, quando competem
em provas da UEFA. Menos pontos no Ranking da UEFA, é todo o futebol nacional
que se fragiliza e se afasta da elite europeia.
Infelizmente, a
proteção do privilégio, em detrimento do rendimento desportivo, não se encerra
nestes casos.
O esforço
diplomático do Presidente da FPF, para que CR7 seja parte da próxima
convocatória de Jorge Jesus - articulado com uma calendarização de conveniência
no castigo ao jogador pelo Conselho de Disciplina - é a demonstração da
prioridade atribuída ao ativo comercial e financeiro, mesmo que seja em
prejuízo do rendimento desportivo da Seleção. Não há engenharia institucional
que possa ocultar que a priorização de um jogador em natural ocaso desportivo,
sobre o rendimento da Seleção, reduzindo esta a um produto de marketing, sob a
marca FPF, em vez da equipa de topo mundial que os seus jogadores podem
constituir. Uma estratégia ilusória que, por razões financeiras, acolhe melhor
o passado do que projeta o presente e prepara o futuro.
A “Liga-FPF,
S.A.”, tem sido um binómio institucional que atua sob o mesmo paradigma: a
proteção de interesses em detrimento do puro rendimento desportivo.
Certamente que
todas estas situações têm um custo sistémico para o futebol português. Como se
observou no Mundial, na fase final da mais importante competição, mesmo com
alguns dos melhores jogadores do mundo na nossa equipa, a realidade competitiva
não se importou com os holofotes de marketing.
Ela cobrou-nos
severamente o preço da nossa permissividade.
Contudo, para os
benfiquistas, no contexto desta captura do futebol nacional que sentimos
diretamente na pele no último clássico e indiretamente em diversas jornadas de
“proteção” portista, o Benfica de Marco Silva trouxe um efeito revigorante. Ele
deu sangue novo ao Benfica e constitui já uma luz na penumbra deste ecossistema
perturbado. Marco é a grande e boa surpresa do futebol do Benfica, nos últimos
anos.
Com a recente
saída de Mourinho para o Real Madrid quando o Benfica o substituiu por Marco
Silva, quem diria que esta decisão melhoraria, simultaneamente, os dois
gigantes ibéricos?
Nuno Paiva
Brandão - Sócio nº 50.166 (antes da renumeração)