REFUNDAR E REINVENTAR O BENFICA
Neste texto, interessa-me analisar a saída de
Mourinho, unicamente na perspetiva da atuação estratégica da Direção do clube.
Comecemos pelos
factos-chave e sigamos a cronologia dos acontecimentos.
·
Em 10 anos, entre 2009 e 2018, o Benfica teve apenas
dois treinadores: Jorge Jesus e Rui Vitória. Ganhou seis campeonatos.
·
Em 7 anos, entre 2019 e 2026, o Benfica teve cinco
treinadores. Venceu apenas uma Liga.
Conclusão direta: a recente instabilidade crónica,
transformando num espaço experimental uma função central para o “Hard Power”
de uma equipa de futebol, não é um bom sintoma.
Neste quadro, acompanhemos a sequência dos episódios
ocorridos com JM e os contextos no Benfica e no Real Madrid.
No início de março, este declarou que: “a minha
continuidade no Benfica só depende da vontade do clube, não depende do
investimento na equipa” e, também, que “se o Benfica quiser renovar, eu
também renovo sem discutir uma vírgula”.
No período de março até à primeira quinzena de abril,
Rui Costa manteve o silêncio e, pressionado pelos mídia, acabou por afirmar ser
aquele “um não assunto” e também por declarar, bizarramente naquele
contexto, que “ninguém está acima do Benfica”.
No mundo do futebol, esta não-resposta à iniciativa de
um treinador de elite, colocou imediatamente o relógio a funcionar, para todos
os participantes nestes processos: empresários, outros clubes, mídia. O
silêncio de Rui Costa, não foi um assunto menor, ele constituiu uma sentença de
morte na possibilidade de renovação com um treinador de topo. Um erro
estratégico que poderá vir a custar muito caro. O regozijo dos rivais foi
revelador: o Presidente do FCP, AVB, alegrou-se que o "treinador mais
importante do futebol português(...) normalmente atrai grandes clubes",
possa estar associado ao interesse do Real Madrid.
Em paralelo, na primeira quinzena de abril, nos dias 4
e 10, o Real Madrid hipotecou as suas opções de ganhar La Liga, ao perder cinco
pontos em duas jornadas. A continuidade de Arbeloa como treinador, passou a
depender então de uma vitória na Champions. Seguidamente, no dia 15 de abril, o
Real Madrid foi afastado da Champions em Munique e Arbeloa tornou-se, na
prática, o futuro ex-treinador do Madrid.
Os factos acima relatados iniciaram-se como histórias
separadas. Mas a conhecida incapacidade decisória de Rui Costa atou-os num nó
indesatável. A sua irresolução mudou tudo: um período de dúvida, um prolongado
silêncio, bastaram para arruinar o processo de renovação de Mourinho, com
consequências indesejáveis, que julgo se medirão mais em anos do que em meses.
O relógio continuará a contar o tempo e os danos
causados ao Benfica estão ainda silenciosos. No futuro, veremos até que ponto
eles serão perniciosos e recorrentes. Claro que, no imediato, a propaganda
interna branqueará a indecisão, vestindo-a de prudência na gestão dos tempos, e
o “novo” projeto de Rui Costa será anunciado, com pompa e circunstância,
juntamente com o novo treinador Marco Silva.
Por inépcia e provavelmente por autoproteção (face às críticas
justamente sofridas com as indecisões nos processos de saída de Schmidt e de
Lage), foi perdido um recurso único, fechando-se a porta de entrada para
um projeto de estabilidade, assente em competências habitualmente só acessíveis
aos clubes mais ricos do mundo. A triste ironia é essa mesma: Rui Costa hesitou
e o Real Madrid aproveitou, chamando a si um treinador no nível hierárquico de
Ancelotti e Zidane, corrigindo as anteriores escolhas domésticas falhadas. E
deixando o Benfica de volta a técnicos, num patamar de competências que não é o
da elite do futebol mundial. O clube perde não só um treinador competente e com
uma experiência extraordinária - também se frusta o trabalho de quase uma
época, dissipa-se carisma e liderança, desaparece uma importante projeção
internacional e prejudica-se a atração de talentos que pretenderiam trabalhar
com JM.
As hesitações de RC, remodelaram o panorama ibérico
dos treinadores nos clubes de topo: para júbilo de AVB, Mou regressa ao Real
Madrid, Marco Silva ingressa no Benfica, e o homem dos bastidores, encantado,
concretiza duas operações.
Quem sai ganhador de tudo isto?
Infelizmente, o afundamento do futebol no Benfica,
ocorre há demasiado tempo: declínio de resultados, vassalização perante as
instituições do futebol (não só nas arbitragens, mas também nesta malfadada
centralização de direitos ora aprovada na Liga com 80% em que o Benfica perde
pela medida grande), um oceano de erros na contratação de jogadores caros, um
incompreensível desperdício de talentos da formação e um volume de prioridades
e modos de ação inconsequentes.
É tempo do Benfica reencontrar o controlo do seu
destino, de exercer a autoridade que resulta da sua força, de se reabilitar
como polo de referência do futebol nacional e no seu poder de atração e
desenvolvimento de talento jovem.
O Benfica enfrenta um dilema: ou se refunda e
reinventa sob uma liderança competente, assente nas suas raízes competitivas e
apta a enriquecer os valores do clube ou se resigna a ser o santuário do atual
“nacional-porreirismo”, de um Presidente limitado na sua autoridade, visão, capacidade
estratégica e decisória, que, ano após ano, tem multiplicado fracassos e que
agora, com mais este erro, desvalorizou as perspetivas do clube.
Do
lado de Rui Costa, no imediato, a aposta desesperada por Marco Silva, parece
mais ser um redirecionar das críticas pela gestão do dossier Mou, do que a
realização de um sonho na contratação específica deste treinador. E sob a
ameaça de perda de mandato em 2027, por efeito de dois eventuais “chumbos” nas
contas, RC necessita da sua “Cúpula de Ferro”.
Como
na vida real, restará saber se esta será eficiente, como se deseja, ou se
apresentará vulnerabilidades fatais.
Nuno Paiva Brandão
Sócio 50.166