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A Seleção: o elo mais fraco (por Nuno Paiva Brandão)

A Seleção: o elo mais fraco

Portugal-1 x RD do Congo-1. E na terça-feira joga-se o Portugal-Uzbequistão...

Marx dizia que a história acontece por duas vezes, a primeira como tragédia e a segunda como farsa. A "tragédia" já ocorreu, esperemos evitar a repetição, como farsa.

E, no entanto, um auto-entusiasmado Presidente da FPF, vaticinava um Mundial de excelência, com acesso às meias-finais: a passagem à fase seguinte estava assegurada, excepto, como se vê, as vitórias nos jogos a isso conducentes.

Neste quadro, o nosso selecionador optou por um plano de jogo que combinava umas doses de sebastianismo no eixo do ataque, com um esquema tático burocrático de passes e passes, em grande parte laterais e para a retaguarda, que evidenciaram uma ambição falida e uma insegurança patológica. Deu prioridade a pesos-pesados do balneário, em vez de se basear na meritocracia. Desejou a paz hierárquica do balneário e, com isso, acentuou clivagens e desunião no grupo, como foi visível nas interações dentro do campo. Nas escolhas individuais falhou duplamente: apostou em quem tem motivação, mas já não tem poder e chamou como opção quem tem poder, mas não tem, atualmente, motivação.

Não é possível ter aspirações num Mundial, sem manifestar ambição, sem projetar força, sem apresentar a coesão de equipa que resulta do respeito pelo mérito.

Não é possível ter aspirações num Mundial, sem focar numa finalidade última que não aceita concessões: nenhum objetivo individual se pode sobrepor a esse propósito maior.

Com este passo em falso, em que o processo foi ainda pior que o resultado, Martinez abriu a porta para um quarto às escuras: se não corrigir o défice de ambição e não restabelecer uma utilização meritocrática dos recursos, o efeito dominó negativo gerado no primeiro confronto irá aprofundar-se.

Numa competição que se define e descreve pelos melhores do futebol, em que o grande Eusébio destronou o Rei Pelé em 1966, seria uma lástima que uma excecional geração de futebolistas portugueses tivesse o seu destino na prova hipotecado pelas fragilidades das decisões do seu elo mais fraco.

Nuno Paiva Brandão 

Sócio 50.166