PORQUE DEVEMOS OLHAR PARA ALÉM DO TERRENO DE JOGO
No universo benfiquista, compreensivelmente, a questão
do treinador e dos reforços para a nova época têm sido os temas centrais em
debate. Mas, após os enviesamentos competitivos sofridos nos dois últimos anos,
seria um equívoco que a Direção do clube deixasse em aberto para o futuro, este
espaço de vulnerabilidade.
A recorrência das situações, concedidas
particularmente ao SCP, faz pressupor um sistema que contém em si a semente de
futuras ocorrências. E em alta competição, em que as diferenças de performance
entre rivais são escassas, essas distorções podem alterar radicalmente a
verdade desportiva das competições.
No futebol português, a competição tem sido bastante
apertada. Nas ultimas 12 épocas, desde que a Liga se disputa com 18 equipas, a
diferença pontual média entre o vencedor e o 2o classificado, foi de 4,7
pontos. Em termos práticos: em média, uma vitória e um empate têm separado os
dois primeiros. Todos recordamos um conjunto de situações, por demais
evidentes, em favor do SCP e, outras, em desfavor do Benfica, com consequências
pontuais que excedem esses 5 pontos.
Não é preciso ser-se muito perspicaz nas observações,
para entender que o domínio do futebol nacional, não se disputa apenas nos
terrenos de jogo, antes se afirma crescentemente no jogo de poder e de
influências nas instituições do futebol (FPF, LPFP, Conselho de Arbitragem).
Se a Direção do Benfica pretende operar uma
reviravolta no declínio de resultados dos últimos sete anos, necessita também
de assumir os instrumentos necessários para o clube ser respeitado, numa
competição cada vez mais híbrida.
Uma vitória e um empate artificialmente conquistados,
é o suficiente para enviesar toda uma futura época desportiva. Esta é a nova
centralidade que o peso das instituições tem hoje na arquitetura do domínio do
futebol nacional. Para voltar a ganhar será necessário um mix especial de
equipa no terreno-equipa de comunicação-equipa de relação com as instituições.
Grandes jogadores e técnicos de topo são indispensáveis, mas já não são a
vantagem protetora que garanta o domínio do futebol.
Por outro lado, a Direção do Benfica deveria refletir
sobre a sua política de alianças estratégicas. Sendo o percurso europeu na
Champions indispensável, desportiva e financeiramente e tendo geralmente
Portugal o seu lugar com uma quota de 2 clubes, a formação, nos últimos 5/6
anos de um triunvirato (SLB, FCP, SCP) no topo do futebol nacional, é uma
ameaça aos interesses vitais do clube. Em sentido contrário, o período recente
mais próspero do Benfica, ocorreu entre 2009/10 e 2018/19. Nessas dez épocas, o
Benfica venceu 6 campeonatos, liderando um duopólio com o FCP, com o SCP fora
do topo. Ora, a acrimónia atual entre as personagens que presidem aos clubes
rivais (AVB e FV) pode favorecer os interesses estratégicos do Benfica, na via
da neutralização do domínio atual do SCP nas instituições do futebol.
Em qualquer caso, a lição a não esquecer, destas duas
últimas épocas é que existe uma competição paralela, de longo prazo, por poder
e influência nas instituições do futebol, que há que enfrentar e
profissionalizar, em alternativa a emitir sucessivos e piedosos votos de
protesto.
As queixas e reclamações denunciam as injustiças, mas
não ganham combates.
O futebol português atual é um estranho ser mutante a
meio-caminho entre os terrenos de jogo e os gabinetes e corredores do poder.
Nestes tempos de competição híbrida, se a Direção não
liderar as “mesas” com as instituições, o Benfica continuará a fazer parte do
menu dos rivais.
Nuno Paiva Brandão
Sócio 50.166