Essa cláusula, a “cruz” que o Benfica carrega…
E essa cláusula ainda perdura… as eleições foram em finais de outubro passado e uma cláusula colocada de “bona fides” pelo Benfica ainda perdura. Tinha a ver com as eleições, com a possibilidade real de Rui Costa perder as eleições e possibilitar a quem viesse poder rescindir com o treinador, qualquer que fosse a razão. Obviamente que tinha o reverso, ou seja igualmente permitiria a Mourinho rescindir, ou porque sim ou porque não.
A dupla Rui Costa/Mourinho ganhou as eleições e naquela Direção/Administração não houve uma alminha que pensasse “e se a gente acabar com cláusula”? A verdade é que nem quando Mourinho em março deu o mote completo e total à renovação, as tais alminhas reagiram, continuando mudas e quedas, quiçá a pensar “outro Schmidt? Não caímos nessa…”
O resto, conhecemos todos demasiado bem. Perdemos o timing, perdemos completamente o controlo da situação, ficando Mourinho com todas as cartas do baralho, enquanto atónitos todos assistíamos ao desmoronar de uma época, confirmando o velho lema de “o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”.
Foi o Mundial de Clubes para esquecer, a condicionar fisicamente toda a época, foi um início de campeonato e Champions pior do que titubeante, com a conquista da Supertaça pelo meio e o apuramento para a Champions a trazer alegrias importantes, mas efémeras. Foi a mudança de Lage por Mourinho, por necessidade certamente, faltando apurar se foi pela equipa ou pelas eleições, se calhar por ambas as causas.
Muitos empates cedidos, vários na Luz com vantagens a defender e a voarem entre azelhices ou infantilidades, um apuramento para o play-off da Champions na cabeça de Trubin ante um vaidoso Real Madrid a ser vergado num 4-2, depois de vitórias a ferros com Nápoles e Ajax, mas com o mesmo Real Madrid a não esquecer a humilhação e a tratar de todos os contornos que envolveram esse play-off, sucumbindo o Benfica entre os milhões estratosféricos.
Voltámos “à terra”, ao futebol indígena, com todas as virtudes e mediocridades que o caracteriza, sozinhos contra todos. Adversários, arbitragens e até o Regulador, votando isolados na centralização de direitos. Voltaram os empates, entre uns quantos quais tiros nos pés e outros em que quem não é inocente percebe como fomos fulminados. Pelo meio, uma bela vitória em Alvalade, tão justa quanto merecida e, mesmo assim, a cláusula lá continuava. Estivemos no 2 lugar, acabámos em 3, porque como disse Mourinho, “não chega” tudo o que se faz no campo.
E este “não chega” tudo diz, bem mais do que os 99% que atribuiu a continuar no Benfica. Mourinho tem muitas “bolas no ar” para decidir, demasiadas para o que alguma vez imaginou. Um paraíso no Benfica, onde lhe sempre deu prazer chegar ao Seixal e onde os adeptos na sua maioria ainda acreditam poder ser o grande protagonista do projeto que falta ao Benfica e adiado desde que Rui Costa há 5 anos chegou à Presidência. Afinal, até tem uma proposta apresentada tardiamente por Rui Costa que é muito boa, segundo Mendes (porque Mourinho cometeu a indelicadeza de nem a ler). Um inferno no futebol português, onde percebe à légua que com esta abúlica Direção, dificilmente poderá ter conquistas, até porque fora da Champions, os tostões estão contados (vide a tentativa de contratação de Zalazar a fazer lembrar Toni quando falava de ir às compras com os bolsos apenas com caramelos). Uma miríade bem real em Madrid empurrado por um Mendes a fazer jus à sua fama de influenciador, mas onde o prestígio de se reencontrar na ribalta tem o contrapeso de um balneário de vedetas truculentas, com um Clube em vésperas de eleições.
Depois de tantas suposições do que Mourinho poderá fazer, reencontremos a realidade que nos diz que o seu ego o faz pender para Madrid. As suas palavras de ontem a seguir à vitória no Estoril demonstram inesperadas hesitações, porventura ditadas pelas emoções de um balneário amigo e que nele confiava como líder por mais 1 ano. Mas Mendes é poderoso e fora dos ambientes benfiquistas tudo fará para o levar para Madrid, lá está - pela cláusula que há muito deveria ter desaparecido. Quem sou eu para dar conselhos a Mourinho, mas relembro um velho ditado português: “quem tudo quer, tudo perde”!
E o Benfica, como fica? Na mesma, como a lesma? Que terão os nossos dirigentes aprendido com esta novela? Os mais céticos, como eu, dirão que pouco ou muito pouco, porque Rui Costa vai no seu quinto ano de Presidente e a atual Direção não o ajuda, como an anterior também não. Aos mais otimistas, aqueles que dirão “ano novo, vida nova”, relembro que muito mais importante do que mudar de treinador é ter políticas estruturadas que cubram todas as vertentes da bola, muito bem afloradas por Mourinho em múltiplas intervenções e os últimos anos demonstraram bem as incapacidades dos nossos dirigentes, das quais a persistência da cláusula é exemplo gritante.
Apontamentos
1. Houve um jogo no Estoril, uma vitória sem discussão pelos 3-0 aos 16’, mas a fazer bem refletir quem vier como timoneiro para 26/27. A falta clamorosa de um goleador é por demais evidente, mas há igualmente que reconstruir a defesa e ter alternativas a Aursnes. Tudo o que deveria ter sido recomposto em janeiro está por fazer.
2. Campeões de Rugby ao fim de 25 anos! Parabéns aos jogadores capitaneados por Tomás Picado e à dupla de treinadores António Aguilar e Francisco Fernandes.
Manuel Boto (Sócio 2794)