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Formar sem governar (por Nuno Paiva Brandão)

FORMAR SEM GOVERNAR

Num momento particularmente difícil do futebol do Benfica em que se evidenciaram as lacunas do plantel constituído para a época de 2025/26 e escassamente afinado no mercado de Inverno, vale a pena recordar o inexplicável contraste entre o desaproveitamento dos talentos formados no clube e as dispendiosas contratações falhadas, sobretudo porque temos presente a recorrente dificuldade do Benfica em dar visibilidade de carreira, na equipa principal, aos melhores jovens da formação. 

Comecemos por notícias recentes: em abril de 2026, o Record noticia: "Rafael Quintas continua sem renovar com o Benfica devido às dúvidas quanto ao projeto desportivo". Quintas não é um jogador qualquer: há mais de dez anos no clube, é o capitão da geração campeã da Europa e do Mundo, no escalão sub-17. Felizmente, existem notícias contraditórias posteriores, dado que, segundo o Mais Futebol, parece existir um acordo verbal para a continuidade deste jovem talento no clube.

Entretanto, o central Mauro Furtado, MVP da final do mesmo escalão, estará de saída do Benfica, ainda segundo o Record, alegadamente pelas mesmas razões que afligiam Quintas – dúvidas sobre a real aposta de jovens feita pela estrutura profissional do Benfica.

Porque há que ter memória sobre estas matérias, até pelos exemplos recorrentes, recuemos a abril de 2022: o Benfica vence a Youth League, esmagando na final o RB Salzburg por 6-0. Desse plantel, o Benfica faturou precocemente João Neves e fez ascender à equipa principal, Tomás Araújo, António Silva e Samuel Soares.

Em sentido oposto, o Benfica negligenciou o retorno desportivo que podiam oferecer os talentosos Cher Ndour, Martim Neto, Diego Moreira e Franculino Djú. Os seus números nesta época, revelam a pegada de talento do Seixal: respetivamente, 29 jogos e 2 golos pela Fiorentina na Série A italiana, 24 jogos, 2 golos e 5 assistências pelo Elche na LaLiga espanhola, 24 jogos, 3 golos e 5 assistências no RC Strasbourg da Ligue 1 francesa e 21 jogos, 17 golos e 3 assistências pelo Midtjylland na 3F Superliga dinamarquesa.

A corroborar este explodir de talento, os especialistas de mercado indicam que o Borussia Dortmund fará uma proposta por Moreira, no próximo mercado, por um valor entre 30M e 40M. Entretanto, Djú estará certamente de saída no próximo mercado, por um valor superior a 25M, para a liga alemã ou para a Premier League.

Este desperdício de talento é funesto: quatro jovens talentosos formados no Seixal, quatro jogadores de futuro desaproveitados pelo Benfica para sempre.

Em suma, os nossos talentos do Seixal tornaram-se "nem-nem": nem retorno desportivo, nem retorno financeiro, vítimas de uma falta de visão estratégica que abrange um horizonte de tempo mais longo que o imediato.

Passemos agora em revista o período 2022/23-2024/25, precisamente quando estes jovens deveriam ter sido contributivos e desenvolvido o seu talento ao serviço do Benfica. O clube, entre outros, contratou jogadores como Tengstedt, Musa, Jurásek, Cabral, Rolheiser, Kokçu e Bruma. Contratações caras que não ofereceram um retorno desportivo proporcional ao investimento efetuado e, em diversos casos, evidenciaram uma clara falta de afinidade com a exigente cultura desportiva do SLB. Não há coincidências, na pista dupla de entrada no plantel principal, a via da "importação" foi privilegiada e uma rampa de acesso ao plantel principal foi bloqueada, para que a outra prosperasse.

A “síndrome” Quintas/Furtado, antecedida pelo mesmo fenómeno em Ndour, Neto, Moreira e Djú, não é nova. Há precedentes e os precedentes importam, porque revelam o carácter estrutural das politicas definidas pelas Direções. Nas listas recentes da Seleção Nacional A, elaboradas por Martinez, há talentos de topo formados no clube que nunca tiveram oportunidades na equipa principal: Cancelo, Bernardo Silva, Ricardo Horta, José Sá. E existem outros que tiveram uma permanência excessivamente curta, como Neves e até Ramos. A exceção que confirma a regra terá sido Ruben Dias que contribuiu durante 4 épocas e foi posteriormente vendido em boas condições financeiras.

Em suma, os exemplos acima são a expressão da dissonância cognitiva vivida no Benfica em relação à formação: incoerência entre a realidade e a narrativa, desafinação entre o presente e o futuro. O Benfica forma, mas não governa. O clube é campeão em formar talentos, mas não governa as suas carreiras, para contribuírem para um Benfica campeão.

Por contraste, observe-se a lista seguinte, relativa a outro colosso da formação, o FC Barcelona, que tem os seus talentos no ponto focal de quem lidera o clube. A sua leitura é uma resposta que muda tudo. As idades das suas estreias a titulares foram: Lamine Yamal (15 anos), Pau Cubarsi (17 anos), Gavi (17 anos), Pedri (18 anos), Balde (19 anos), Fermin Lopez (20 anos), entre outros. Na fortíssima liga espanhola, estes jovens entraram por mérito, não por favoritismo. Tal como no Benfica, existe qualidade para atingir o topo e forte afinidade ao clube. Ao invés do Benfica, esta é a principal rampa de acesso ao plantel principal.

A concluir, não quero deixar de enfatizar que seria uma lástima que alguns elementos da mais recente geração de talentos do Benfica fossem sacrificados pela alargada pegada do domínio económico no futebol e pela multifacetada arquitetura do poder. E que fossem excluídos da futura reviravolta do futebol do Benfica, na necessária dinâmica para recuperar o domínio das competições nacionais.

As dúvidas que atribuo a Quintas e Furtado corroboradas por tantos outros jovens talentos no passado recente, são uma mensagem clara e inequívoca para a Direção do Benfica. Mas para os benfiquistas, na interseção entre o desgosto e o protesto, elas podem vir a constituir mais um dos parágrafos da sua sentença.

Nuno Paiva Brandão

Sócio 50.166