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Na rota de uma bolha especulativa (por Nuno Paiva Brandão)

 NA ROTA DE UMA BOLHA ESPECULATIVA

 

No momento atual do Benfica coexistem e sobrepõem-se dois movimentos contraditórios: à superfície, um arranque desportivo de êxitos, com vitórias pragmáticas; nas águas profundas, fluxos financeiros insustentáveis, que num futuro arriscam-se a ser entendidos como vetores de uma bolha especulativa irresponsável.

 

A campanha pré-eleitoral de Rui Costa tem-se baseado em dois pilares: o silêncio sobre o futuro e, sobre esse mar de quietude, deixar ecoar nos associados, a euforia de contratações caras e mediáticas. No instante, RC marca pontos. As contratações motivam, a equipa, melhor dotada de jogadores, vai ganhando e a sua candidatura fortalece-se. Mas os números são teimosos. Ao romper com o já elevado tecto anterior de 20 milhões (Artur Cabral), e perspetivando-se um incremento de 50%, ao visarem-se jogadores que, empresários hábeis, conhecedores do modelo benfiquista, conseguem promover na ordem dos 30 milhões, RC acelera numa perigosa via especulativa. Por outro lado, esta inflação brutal dos valores já investidos e a investir, contrasta com a rigidez das receitas ordinárias e com a incapacidade em comprimir as despesas correntes, nomeadamente a muito inflacionada rubrica de Fornecimentos e Serviços Externos. 

 

Esta crescente desproporção, vem aumentar perigosamente as vulnerabilidades e dependências financeiras do Benfica. A estratégia agora intensificada, faz escalar perigosamente a dependência da sustentabilidade financeira do clube, de dois fatores extraordinários: a realização anual de avultadíssimas mais-valias com a venda de jogadores e a capacidade anual consecutiva em aceder à Liga dos Campeões.

 

No que se refere à necessidade recorrente de mais-valias muito significativas, dois fatores se perfilam como ameaças: a explosão dos custos de aquisição e a erosão percecionada da competitividade da Liga portuguesa. Assim, erros do tipo da contratação de Cabral por 20 milhões, se forem repetidos, agora em patamares de 30 milhões, terão um impacto fortíssimo no futuro (prejuízos na Conta de Exploração e aumentos do Passivo no Balanço). 


O jogo de poker da atual Direção de RC poderá fazer colapsar a banca do apostador. Por outro lado, e cumulativamente, a degradação percebida da competitividade da Liga portuguesa, constitui uma forte ameaça adicional. Têm sido publicados vários artigos na imprensa estrangeira, sobre a capacidade dos clubes portugueses de topo, venderem jogadores por um sobrepreço. No caso do Benfica, as performances posteriores de Félix, Enzo e Darwin, não são tranquilizadoras para o mercado. Mais recentemente, as duvidas levantadas sobre o rendimento do melhor jogador das duas ultimas ligas (Gyokeres) na Premier League, reduzem a confiança na pertinência de efetuar investimentos extremamente elevados em jogadores , com base fundamentalmente no seu desempenho na Liga nacional. Sem um mercado externo confiante e com valores de contratação inflacionados, como é que se realizarão futuramente as necessárias mais-valias? Como em todas as bolhas especulativas, o agente económico que pensa que a espiral inflacionária não cessa, herda a quebra sistémica. RC, o rei do passe , que tanto nos encantou como futebolista, arrisca-se a fazer agora, como Presidente, um passe para a insustentabilidade financeira.

 

Em matéria de receitas diretamente asseguradas pela presença na fase de grupos da Liga dos Campeões, a recente competitividade interna do Sporting, veio ameaçar a garantia anual das mesmas. Com apenas o campeão salvaguardado nessa etapa da competição, e com o fim do duopólio Benfica-FCP, o modelo atual da Direção do Benfica incorpora um elevado risco adicional. Recorde-se que, infelizmente, a taxa de sucesso do clube na Liga, nos últimos oito anos, é de apenas 25%.

 

A rota atual, traduz-se também na seguinte fotografia: no onze titular do Benfica há dez jogadores adquiridos no mercado externo e um da formação. Existem dez estrangeiros e um português. Por contraste, o campeão Sporting, no seu onze titular tem apenas cincojogadores comprados no mercado externo (metade do Benfica), dos quais dois são jogadores portugueses que regressaram ao país. E tem quatro-cinco titulares portugueses. Utilizaram eficientemente o mercado interno e cuidaram do equilíbrio demográfico da equipa, fator de coesão.

 

No Benfica, o êxtase mercantilista, tem vindo a anular o papel dos jogadores da formação. João Veloso, fez uma magnifica exibição na Luz na Eusébio Cup e logo desapareceu de cena. Tiago Gouveia, outro talento, tem sido sempre preterido, apesar da magnifica época feita no Estoril em 2023. João Rego, Diogo Prioste, Hugo Félix e outros não têm tido qualquer oportunidade no plantel principal. Todos eles serão tendencialmente emprestados. Henrique Araújo, em 2018 o melhor avançado da sua geração, foi ostracizado por Schmidt e só agora foi recuperado para o plantel. O Benfica tem uma magnifica infraestrutura no Seixal e técnicos de formação de topo, mas no final, infelizmente, parece ser que Franculino Dju, um talento de 2004, formado no clube, teve razão quando optou por sair do Benfica e escolheu prosseguir a sua veia goleadora na Dinamarca. Leva 42 golos em 83 jogos pelo MidtjyllandEste clube recusou recentemente uma proposta de 30 milhões de um clube da Liga francesa. Dju, como tantos outros, não se enquadrava na politica mercantilista.


Quando Florentino Peréz revolucionou o Real Madrid no inicio deste século, o seu mote foi: “Zidanes y Pavones", aludindo a uma estratégia mista de estrelas contratadas e jogadores da formação. Esse equilíbrio perdeu-se no Benfica com a vitória esmagadora da máquina mercantilista. E esse desequilíbrio arrastou uma perda de identidade e de cultura própria. 


Quem não se recorda da atitude de Enzo Fernandéz no mercado de Inverno em que saiu do Benfica? Quem não se lembra das declarações de outros jogadores, situando o Benfica como uma mera plataforma de acesso a curto prazo a outros horizontes?


Quando uma equipa se constrói e se gere no enquadramento do paradigma atual, quando a maioria dos seus contratados aspira a mudanças no curto prazo, como se pode assegurar a vivência dos valores históricos do clube e honrar a sua história e tradições? Como se pode, sequer, assegurar um mínimo de consistência, de continuidade e de coesão?

 

Neste contexto volátil e desarmónico, a missão de um treinador é extremamente difícil.

Quando as águas profundas alcançarem a superfície, aos riscos de insustentabilidade financeira, irão juntar-se as ameaças de reiterados insucessos desportivos. Os êxitos desportivos de curto prazo, por muita felicidade que nos tragam, não podem ocultar os riscos que os excessos financeiros eleitoralistas representam.


Sem uma mudança profunda do modelo, a bolha especulativa com as suas graves consequências financeiras e desportivas será inevitável. 


Não há melhor oportunidade do que esta: nas próximas eleições, há que votar pela mudança.

 

         Nuno Paiva Brandão 

         Sócio 50.166