PALHINHA NÃO DEVE SER O ÁLIBI DA DIREÇÃO
A reentrada futebolística do Benfica, após as dececionantes últimas épocas, concentra a elevada carga emocional resultante do declínio ocorrido nos últimos seis anos. A recentemente anunciada contratação de Palhinha, importante para o equilíbrio da equipa e um "doping" moral face à concorrência (na linguagem NBA, "Sporting! In your face!"), não deve servir de álibi para a atuação da estrutura diretiva do clube, neste inicio de época.
Analisando friamente, verifica-se que o futebol do Benfica carbura a duas velocidades bem diferentes. No terreno de jogo, Marco Silva conseguiu que o futebol da equipa melhorasse rapidamente. Sobretudo, a qualidade do jogo ofensivo progrediu muito, bem como o contributo individual de vários jogadores, nomeadamente os agora muito influentes Prestianni e Rafa, sem esquecer o reacender da veia goleadora de um muito motivado Pavlidis.
Porém, a estrutura diretiva do Benfica, apesar do "hype" da contratação de Palhinha, não acompanhou a força transformadora do treinador, dada a ampla brecha entre o que deveria ter sido feito e aquilo que foi efetuado. Apenas a 19 de Agosto(!), contratou o jovem central Circati, depois de saber, desde há meses, da irreversibilidade das saídas de António Silva e de Otamendi. Em vez de planificar, anticipar e executar, foi andando atrás dos acontecimentos, levando a equipa a competir nesta fase da Liga Europa e na 1ª jornada da Liga apenas com 2 defesas centrais no plantel.
Esta displicência, veio com um preço na etiqueta: 2 pontos perdidos com o Académico de Viseu, com dois golos sofridos em casa, por falhas nessa área crucial do jogo. Igual falha de visão e de liderança se manifesta na incapacidade de dar prioridade a um guarda-redes capaz de ser decisivo. Para não utilizarmos os exemplos óbvios nos rivais, lembremo-nos das contratações de Julio César, Ederson e Oblak num passado recente. É esse o nível de que o Benfica carece.A Direcção deu prioridade ao investimento num putativo substituto de Schjeldrup (Kaminski), para a eventualidade de chegar uma oferta irrecusável pelo craque norueguês. Como se vê, apressaram-se a resolver o problema errado, deixando o óbvio (um guarda-redes decisivo) por solucionar.
Voltando aos aspectos positivos da "rentrée", Marco Silva trouxe novos conceitos de jogo, posicionamentos inovadores, criando um futebol fluido, dinâmico e atrativo. O número de oportunidades criadas e, em alguns jogos, as goleadas conseguidas, testemunham a melhoria rapidamente alcançada.
Por outro lado, o entusiasmo dos adeptos e as renovadas esperanças na conquista do 39, certificam a bondade dos novos ares que se respiram na Luz.
Contudo, os campeonatos tendem a ser ganhos pelas defesas mais eficientes e, na época passada na Liga, esse foi o paradigma vencedor. A confirmar a validade desse padrão, a grande máquina ofensiva da Europa, o Real Madrid, após 2 épocas frustrantes sem vencer La Liga, nem a Champions, o que é que priorizou? Antes de tudo, contratou bem cedo na época Dumfries e Cucurella, dois laterais, e Konaté, um defesa central poderoso no jogo aéreo. Contrastando com esta estratégia, a estrutura diretiva do Benfica não solucionou o seu défice de eficiência na baliza, tardou meses a contratar um terceiro central (Circati), não substituiu o lateral direito titular (Dedic) que foi vendido por um valor irrecusável e tem ainda limitações crónicas no seu lateral esquerdo (Dahl). Esperamos que a importante contratação de Palhinha não venha a ser um alibi para tantas insuficiências, nem, no futuro, Marco Silva venha a ser um bode expiatório das mesmas.
Infelizmente, o futebol do Benfica move-se a duas velocidades. É uma lástima que assim seja, porque o contexto competitivo da época em curso, parece mais favorável. O modelo eficiente, mas futebolisticamente mesquinho do FCP, poderá ter alcançado o seu limite. A venda do grande talento Rodrigo Mora, para alívio do treinador Farioli, assinala o triunfo de uma mecânica de jogo funcional, assente no vigor físico acima do talento criador. Os modestos 39 pontos alcançados pelo FCP na segunda-volta da época passada, no contexto de um treinador que tem um histórico assimétrico de pontuações nos campeonatos disputados pelas equipas que dirigiu, aponta para uma eventual erosão competitiva.
Do lado de Alvalade, a herança futebolística de Amorim acabou. Ficaram os frutos financeiros das muitas vendas efetuadas e uma ampla renovação da equipa, com jogadores de perfil alto. Mas, construir uma equipa nova, é uma tarefa distinta de gerir e fazer evoluir uma equipa herdada. Já não sobra quase nada da herança, agora Rui Borges terá que empreender para criar ele próprio riqueza. O timoneiro escolhido por Varandas, parece estar com dificuldades em assumir o desafio, nomeadamente na gestão do grupo. Neste enquadramento propício, é indispensável que a Direcção do Benfica não se "esconda" atrás da contratação de Palhinha e que proporcione a Marco Silva, TODOS os recursos necessários, para se capitalizar sobre esta oportunidade única.
Esperamos que a importante contratação de Palhinha, não seja o álibi para as insuficiências acima enumeradas.
Os últimos 6 anos deixaram muita deceção e algumas divisões entre benfiquistas. O trabalho de Marco Silva abriu uma janela de oportunidade para o Benfica retomar a liderança do futebol nacional. Contudo, o seu esforço pode ser destruído do exterior (por certos fatores institucionais) ou do interior (por incapacidade da estrutura do clube), ou pode ser salvaguardado e potenciado, pela força única dos adeptos e pela acção da Direção do Clube/SAD. Mas para isso é necessário que todos e cada um de nós cumpra o seu papel.
Nuno Paiva Brandão
Sócio 50.166