O EMPATE NA ESTREIA É MAIS DO QUE UM SINTOMA DAS LACUNAS DO PLANTEL
Na sequência do dececionante empate com o Académico de Viseu, muitas vozes benfiquistas, com razão, apontaram o dedo às lacunas do plantel do Benfica, que tardam a ser mitigadas ou totalmente corrigidas.
Contudo, infelizmente, creio que este desaire inicial na Liga, não é apenas o subproduto de desequilíbrios no plantel, é também e sobretudo, de forma mais ampla, uma inconstância resultante de escolhas fundamentais feitas pela Direção do Benfica nos últimos anos.
O êxito recorrente no futebol de alta competição, requer a escolha de um modelo de jogo estável, a seleção dos jogadores adequados a esse modelo e uma consistência nas equipas técnicas que operacionalizam essa visão. A seleção espanhola, atual campeã do mundo, adaptou o mesmo modelo de jogo com Aragones, com DelBosque, com Luis Enrique e agora com Luis de La Fuente. Como é lógico, as seleções dos escalões de formação, todas extremamente competitivas ( a Espanha é também campeã europeia em Sub-19) aplicam o mesmo sistema de jogo. Os jogadores jovens, quando alcançam o patamar da selecção A (Lamal, Cubarsi), conhecem, desde há anos, a identidade dos processos de jogo com que vão atuar.
Por contraste, o Benfica recente, com um carrossel de treinadores diferentes e sem um padrão de jogo definido, sofre, época após época, um "reset" de conceitos de jogo e de perfis de jogadores para servirem o modelo preferido do último técnico ao serviço do clube. O território é o mesmo, mas o mapa do terreno muda constantemente. Assim, a necessária estabilidade e a segurança competitiva, bem como a planificação serena que se observa na seleção espanhola (e em boa medida também no FC Barcelona), é substituída no Benfica por recomeços consecutivos, inevitavelmente geradores de oscilações e incertezas, com reflexos no incremento de erros individuais e
colectivos.
Mas a instabilidade vivida nestes últimos anos de declínio é também causada por outro factor. Refiro-me às surpreendentes flutuações dos perfis de jogadores escolhidos pela Direção. Não me refiro aqui ao valor futebolístico intrínseco das escolhas feitas (tema vasto que abordei noutros textos), mas sim à sua afinidade aos valores do clube e às suas ambições. A capacidade dos jogadores recrutados para veicular as aspirações de um grande clube, a sua resiliência, e as suas qualidades individuais de probidade e disciplina. No ciclo vitorioso do Benfica, entre 2009/10 e 2018/19, a esmagadora maioria dos jogadores contratados tinha uma afinidade plena com o clube (Jonas, Salvio, Fejsa, Gaitan, Samaris, Pizzi, Enzo Pérez, Matic, entre tantos outros). Excelentes jogadores e com umas qualidades profissionais alinhadas com os valores do Benfica.
Nos tempos mais recentes, para além dos múltiplos erros desportivos de recrutamento, o Benfica apostou, nalguns casos, por jogadores com perfis psicológicos frágeis, facilmente perturbáveis pela normal concorrência interna (Beste, Trubin, Sudakov), por talentos egoístas e/ou indisciplinados (Kökçu, Bruma, Lukebakio). Nas duas situações, em desalinhamento total com uma identidade coerente com o clube.
O que tristemente parece claro, pela experiência nesta fase do clube, é que com uma parte do plantel construída com base nestes perfis, podem ganhar-se jogos competitivos e, eventualmente, alguma taça interna. Mas será muito improvável ter o alto rendimento constante que uma vitória na Liga requer.
Por último, como factor agravante deste mau desenho do perfil do plantel, há ainda que destacar, ao longo destes anos, a falta de aposta nos talentos da formação, os quais, esses sim, têm o conhecimento da cultura competitiva do Benfica. São frequentemente preteridos em favor de jogadores emprestados, dos quais resulta difícil obter a energia especial, o fervor clubístico e o sentido coletivo, necessários a grandes conquistas.
Marco Silva é um bom treinador, motivado e, seguramente, será uma força condutora das ambições de todos os benfiquistas. Mas não o responsabilizemos pelas atuais fundações de barro em que assenta o edifício do futebol do Benfica.
Que a Direção do Benfica dê a Marco Silva os recursos necessários e deixem-no criar um projeto estável e de continuidade. Concedam-lhe a possibilidade de estabelecer um novo sistema, novas regras e destacar novas aptidões na equipa. Que não se desperdice uma nova oportunidade de alcançar de novo a glória desportiva.
Nuno Paiva Brandão
Sócio 50.166